No terceiro mês de gestação, a comerciante Suzana Bertolucci, 33, de Paulo Afonso (BA), contraiu o vírus zika. Os primeiros ultrassons não demonstraram danos neurológicos no bebê, mas pouco antes do parto um exame revelou a microcefalia. Suzana afirmou que para compreender a situação se fazia uma pergunta: "Nunca questionei por que isso está acontecendo comigo. Sempre coloco: por que não comigo?"

Zika: O drama dos bebês que são o rosto de uma ‘pandemia’

De repente estamos inseridos num cenário típico dos filmes de ficção científica: um ‘monstro’ que invade a Terra com a intensão de dominá-la. Sua arma mais poderosa para enfraquecer os humanos é lançada através da picada de um mosquito. A pessoa picada pelo mosquito está condenada a desencadear doenças incuráveis e no caso de mulheres, estas, poderão ter filhos com minúsculos cérebros.

Por mais surreal que pareça, não é ficção. Estamos literalmente vivenciando essa história, estamos inseridos nela em ‘Status Quo’ à mercê, do que eu gosto de chamar, terrorismo psicológico em massa, das informações difusas dos meios de comunicação.

As Nações Unidas pediram na sexta-feira, 03/02/16, aos países atingidos pelo vírus Zika, suspeito de provocar malformações congênitas em fetos que facilitem o acesso das mulheres à contracepção e ao aborto.

Que dilema extenuante a ONU lança sobre o nosso precário discernimento do problema. Simples assim?

A relação entre o vírus Zika, disseminado pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue e a febre amarela, e o aumento dos casos de microcefalia no Brasil, e na Colômbia, ainda não foi provada cientificamente, mas é, segundos os especialistas, “altamente provável”

E assim, seguem as angústias do terrorismo psicológico causadas pelos indícios: o vírus, que já apareceu em 25 países e territórios das Américas, propaga-se na América latina através do mosquito ‘Aedes aegypti’ e os Estados Unidos anunciaram um caso de transmissão por via sexual, no Texas.

Face a esta ameaça, diversos países latino-americanos optaram essencialmente por ‘exortar’ as mulheres a não ficarem grávidas.

No entanto, o Alto Comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, considerou que este alerta não tem qualquer utilidade nos países que proíbem ou limitam estritamente o acesso aos métodos de planeamento familiar, como a contracepção e o aborto.

“O conselho dirigido às mulheres de adiar a gravidez ignora o fato de muitas entre elas não terem simplesmente o poder de decidir se ou quando pretendem ficar grávidas, num ambiente onde a violência sexual é moeda corrente”, sublinhou Zeid num comunicado.

Pelo contrário, o responsável da ONU exortou os governos desses países a “assegurarem que as mulheres, os homens e os adolescentes tenham acesso aos serviços e a informações de qualidade sobre a saúde e a reprodução, sem discriminação”.

Estas medidas incluem – precisou o Alto Comissariado – o direito à contracepção, aos cuidados materno-infantis e ao aborto num ambiente de segurança.

“O acesso a esses serviços deve ser revisto com urgência em conformidade com as obrigações em matéria de direitos humanos, para garantir o direito à saúde para todos”, referiu ainda Zeid.

É claro que devemos observar a complexidade da situação em suas esferas globais culturais. Cada país, cada povo, cada comunidade, cada família, cada um… tem a sua maneira de lidar com seus problemas. Tem suas crenças e seu modo sentir e/ou de interpretar racional, emocional, espiritual ou convenientemente a situação com a prévia de suas tradições ou com a sabedoria empírica do momento.

Mas vamos falar, então, só da nossa cultura, a brasileira. Aqui, pelo menos a maioria, trata os filhos de modo afetivo. Nossos filhos não são ‘coisas’. Nossos filhos são ‘tudo’ para nós. Aqui, nossos filhos solteiros de quarenta anos de idade ainda moram conosco. Defendemos os nossos filhos como sendo as criaturas mais relevantes da Terra.

E os nossos filhos ‘defeituosos’? Os amamos do mesmo modo? E essa face microcefálica, merece os nossos melhores beijos e a luz de nossos melhores risos?

“No terceiro mês de gestação, as primeiras ultrassons não demonstraram danos neurológicos no bebê, mas pouco antes do parto um exame revelou a microcefalia. Para compreender a situação eu me fazia uma pergunta: por que não comigo?”. Suzana Bertolucci, 33, de Paulo Afonso (BA).

Cristovão Tezza em seu livro “O filho eterno”(livro que li três vezes e fiz muitas anotações, pois gostei imenso e recomendo) relata sua experiência de ter um filho portador de Síndrome de Down. Tezza não é o primeiro pai de uma criança com Down e nem será o último e o que ele narra tampouco entra no campo dos fatos extraordinários da vida.

“A tensão de quem acorda sonado se esvazia, minuto a minuto. Como ele é? Não sei, parece um joelho – ele repete o que todos dizem sobre recém-nascidos para fazer graça, e funciona. O bebê é parrudo, grande, forte, ele inventa: é o que querem ouvir. Sim, está tudo bem”. Cristovão Tezza em ‘O filho eterno’.

O escritor descreve a sua dificuldade em aceitar a síndrome do filho. Ousa dizer que gostaria que ele não tivesse nascido, assim não afetaria a rotina normal de sua vida. Mas é certo que a história teve um final feliz, onde pai e filho se encontram, se conhecem e convivem com o problema de modo que ambos aceitam o aprendizado com amor.

O filho de Cristovão Tezza atualmente é um adulto capaz de elaborar sua própria visão de mundo e até ensinar o pai sobre o que é a vida:

“Foi meu filho, senhores, foi ele, naquele momento, que usou esta expressão ridícula, o sentido da vida, que eu ando martelando na cabeça como quem repete uma frase de almanaque, mas a culpa é dele, o meu filho é o inimigo do meu sonho, foi lá que ele disse com todas as letras e a voz ainda baixa, o que sempre quis foi dar um sentido à minha vida, e ele estava encontrando esse sentido em sua nova vida, na fúria independente dos seus 20 anos, quando todos acham que vão mudar alguma coisa só por terem bons sentimentos e bons pensamentos e uma certeza estúpida na testa”. Cristovão Tezza (em entrevista ao Blog: Capítulo Dois).

Vamos concluir nossa reflexão dando-lhe a cor que a reflexão pede: toda criança com microcefalia pode e deve ter uma vida, uma existência, uma história e receber os mesmos afetos que dispensamos aos nossos filhos ‘normais’. Em minhas pesquisas para escrever este texto, encontrei muitos relatos de mães, pais e até dos próprios portadores de microcefalia, sobre como conviver com a doença. No Youtube é possível encontrar vídeos de ‘filhos eternos’, aos quarenta anos, em seu convívio com a família, com o seu e/ou outros grupos.

Se nos atentarmos aos valores e direito à vida, amaremos os nossos ‘filhos eternos’ e lhes seremos gratos pela oportunidade de desenvolvermos a nossa benevolência e amor incondicional. Nossos ‘filhos eternos’ são como as flores que não tendo ciência que é uma flor: simplesmente nasce com suas cores extraordinárias, o seu perfume peculiar e seus inofensivos espinhos.

 

 

TEXTO DEClara Dawn
FONTESapo Lifestyle
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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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