Mário Sérgio Cortella: “A dignidade se expressa na capacidade de persistir”

Uma parcela do que estamos fazendo na escola é socialmente irrelevante. Pode ser relevante como cumprimento de dever, no que se refere a um conteúdo programático trabalhado, um relatório preenchido, um diário completado, mas isso é só obrigação. Eticamente, é quase um clamor que nós ultrapassemos esse mundo de tarefa e cheguemos ao mundo da política com aquilo que fazemos.

Não estou usando política no sentido de partido, mas de ação na comunidade, recuperando o conceito grego clássico, que trabalhei com Renato Janine Ribeiro no livro Política para não ser idiota (Editora Papirus). A presença na polis não pode se contentar em ficar na obrigação. O movimento precisa partir da tarefa para aquilo que seja socialmente relevante, que dê significação social ao trabalho que se constroi, que alunos, alunas e comunidade ganhem na condição de vida, de sonho, de projeto, que aumentemos a fertilidade do futuro, que recusemos a precarização da condição de vida das pessoas.

Isso sai do mundo da tarefa e vai par o campo do dever ético. É uma missão, mas não no sentido que já se trabalhou no campo da Educação, como uma vocação, que significa “chamamento” externo. Muita gente usa a palavra “vocação”, missão, como um apelo interno. E, a partir dele, quero me agregar a outros que o façam também para que avancemos em direção àquilo que eleve a vida da comunidade. Isto é, que se faça política, no sentido mais decente que se possa fazer.

Por isso, essas questões intraescolares não dependem nem do governo nem do sistema; elas são uma decisão ética.

O que me chama para isso? Não preciso de convocação que venha de algum lugar, se eu tiver clareza de que a minha dignidade como professor ou professora se expressa na minha capacidade de persistir. Remete àquele clássico conceito da física, que entrou na área social nos últimos 20 anos, que é resiliência. Mas não uma resiliência passiva, e sim aquela que se transforma em persistência, que, por sua vez, gera acão. O que caracteriza a resiliência de um material é uma alteração do estado original, compressão e eventualmente uma dobra sem ruptura. Isto é, submetida a condições agravadas, a estrutura não se rompe e volta ao seu estado original.

Eu estou olhando a resiliência como uma virtude, mas não posso ficar nela, porque isso significaria repousar e ficar onde já se está. É necessário uma resiliência ativa transformadora.

Meu dever ético é adoção de uma caminho político que não seja solitário, embora seja individual, e que se agregue a outros trabalhos políticos.

Existe uma tendência a separar política e cidadania, criando uma rejeição curiosa à política e valorizando a cidadania, como se fossem termos diversos. Há um vínculo até mesmo de natureza semântica entre as duas palavras. Objetivamente, significam a mesma coisa.

A noção de política está apoiada no vocábulo grego polis (cidade),e  cidadania se baseia em um vocábulo latino correspondente:civitatem. Embora a origem etimológica seja diferente, os dois termos propõem que se pense na ação da vida em sociedade (ou seja, em cidade). Essa relação direta mostra ser impossível apartar os conceitos.

Texto extraído do livro Educação, convivência e ética;audácia e esperança, Cortez Editora, 2015, páginas 51/52





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