Afinal, o que amamos quando estamos apaixonados? Por Leandro Karnal

“Amor – Infecção passageira; sentido da existência; impossível neste mundo; só o de mãe; pássaro rebelde; unicamente o de Deus; carência dirigida; invenção da literatura italiana… Ele é um fogo que arde sem se ver; sua importância supera falar a língua dos homens ou dos anjos; é uma descarga de hormônios… O conceito de amor é de uma variedade assombrosa. Quase todos amam, mas ninguém chega a um veredito objetivo sobre os limites deste latifúndio da psique humana.

A biblioteca amorosa é uma selva confusa. O romano Ovídio , na sua Arte de Amar, insistiu em estratégias objetivas para atrair a pessoa amada, mesmo em casos extraconjugais. Séculos depois, Shakespeare imortalizou dois amantes: Romeu e Julieta. O caso mais célebre de paixão literária iniciou-se num domingo à noite e terminou, de forma trágica, na quinta-feira da mesma semana. Talvez o imaginativo Padre Vieira estivesse certo no seu pessimismo: o amor é representado por uma criança (Cupido) , porque nenhum amor humano dura tanto que chegue a se tornar adulto.

No século XVIII, um abade erudito e rebelde, Antoine François Prévost d’Exiles (1697-1763) , vagou pela Europa lançando obras variadas. A vida rocambolesca do abade parece ser transcrita na obra de 1731: Histoire du Chevalier des Grieux et de Manon Lescaut. A história de Manon tem idas e vindas por portos, exílio, quebra de votos religiosos e final difícil: este foi o pequeno tijolo que Prévost assentou na parede da literatura amorosa.

O século do Iluminismo foi um século onde a sexualidade era vivida de forma menos hipócrita do que no seguinte, o vitoriano XIX. Sim: havia moralistas e censores, mas o Abade não foi um deles. A obra já citada do Cavaleiro des Grieux e de Manon Lescaut foi a que mais sobreviveu da sua prolífica pena. O tom é quase coloquial e dialoga com o leitor. A narrativa indica a memória de um eu lírico que começa o texto com uma evocação.

Uma mulher vagando na imaginação do mundo

Não é o gênio literário que tornou Prévost imortal. Provavelmente, sua personagem Manon foi maior do que o autor. Isto ocorre por vezes: filhas superam pais. Manon Lescaut serviu para uma ópera quase esquecida de Daniel François Esprit Auber (1782-1871) . Com libreto de Eugène Scribe (1791-1861 ) , a obra estreou, em Paris, no ano de 1856, dentro do gênero tão complexo de definir que foi a opéra comique . O termo não se refere ao aspecto de comédia, mas à existência de diálogos, recitativos e de outras regras específicas.

Manon ainda foi a musa de uma ópera de Jules Massenet (1842-1912) , cuja estreia foi na Opéra-Comique de Paris, em 1884. Foi um grande sucesso e integrou, quase imediatamente, o repertório internacional. Há uma beleza do épico e universal romântico em árias vivas e coloridas, com o cotidiano e a microfísica do amor. Destaque-se a cantada por Manon no Ato 2: “Adieu, notre petite table “. (Adeus, nossa pequena mesa) Fácil entender o sucesso da obra de Massenet. Fácil supor olhos lacrimejantes na Paris da Belle Époque diante do quadro da ruptura que acompanha o amor. Cada objeto remete a uma evocação do êxtase que ela vivenciou. A materialidade da mesa transcende e enleva, mas machuca pelo que não mais é. A beleza do amor dialoga com sua fugacidade.

No fim do século XIX, Puccini estreou outra versão sobre a obra de Prévost: surge a nossa Manon Lescaut. Mas a força inspiradora da infeliz Manon ainda estaria em ballets e outras composições.É uma força curiosa. O belo Dorian Gray lê Manon Lescaut enquanto aguarda Lord Henry, na obra de Oscar Wilde. Também na Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, aparece um exemplar do livro logo no início da obra. Sem ser invasiva, sem se tornar uma Napoleão de saias, a frágil Manon entra em quase todos os lugares, inspira criações e ainda paira, diáfana e trágica, mito além do que sonharia seu criador. As fraquezas pessoais de Manon são evidentes, mas qual seria a força desta mulher? De onde vem a sedução de uma quase freira-cortesã-emigrante?”.

Por Leandro Karnal

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