O que Auguste Comte diria de nossa atual desordem e ‘pangresso’?

O jeito mais fácil para organizarmos a gaveta é jogar tudo no chão ou em cima da mesa e separar o que é útil. O que não presta jogamos na lixeira. Não é assim que fazemos para organizar e pôr ordem em nosso espaço? Aí é só zelar para permanecer. A vantagem é o ganho de tempo para fazer outras coisas. Porque sabemos onde está cada objeto. Esse desarranjo pode ser na gaveta ou no quarto ou, ainda, numa cabeça de gente. O sentido deste prólogo é mostrar que, muitas vezes, precisamos bagunçar para depois, com calma e sabedoria, recolocar no lugar.

Quem já viu uma casa sendo desmontada para mudança?  Instala-se um caos desesperador.  A impressão é de que por ali passou um terremoto; tudo fora de lugar. E a agonia em pensar que não conseguiremos reorganizar como antes. Ou o espanto com a quantidade de lixo que trazíamos nas gavetas trancadas às chaves.

Nessa ocasião o que não presta deve ser descartado. Ora, mas se estava trancado não deveria ser importante e útil? Mas o caos que sucede a organização é o mesmo que amedronta e desestimula. Queremos porque queremos que tudo esteja melhor e até cremos que sim, tudo será melhor do que antes. Ficamos apáticos diante daquilo que nada mais é do que a consequência de nossas escolhas.  Aí, de posse dessa reflexão, passamos a escolher um novo lugar para hospedarmos os objetos prestáveis e encestar os que em nada contribuem para o nosso bem estar.

Arrumação para uma parte dos jovens de hoje é um terror. Para mim que, já faz tempo passei de jovem, é uma necessidade. O mais insensato para dizermos a um jovem é que é proibida tal coisa. Aí ele faz o proibido. Mas este é um traço da nossa cultura: Fazer o proibido. Um dia um adolescente me disse  que o sinal vermelho existe para ser “furado”. Aí cabe  lembrar a música de Caetano Veloso: “ É Proibido Proibir”. Confira a atualidade da letra. Contudo, a má notícia para quem gosta da proibição, e de bagunça, está na bandeira nacional, na quase matemática afirmação do francês Auguste Comte de que sem ordem não há progresso. Primeiro a Ordem e o Progresso será  consequência. Estamos fartos de bagunça.

No caso de corrupção que tomou conta do país na recente Operação Lava jato, a proibição da Lei de Responsabilidade Fiscal e o crime tipificado na Lei de Improbidade Administrativa, nem foi lembrada. E aconteceu a transgressão generalizada de um grupo de pessoas arrivistas que acreditam que se existe corrupção em todos os lugares e em outros governos, por que não aqui e agora? Se os outros erram por que não podemos também errar? (Será?).

Auguste Comte nos diria que esta bagunça na política e na economia brasileira seja a senha para mudar o caminho. “Talvez, só talvez”. Precisamos acreditar que todo esse cenário planglossiano de que “vivemos no melhor dos mundos possíveis” é só uma fase de colocar todas as coisas úteis numa caixa e transportá-las para um tempo de Ordem onde o Progresso poderá acontecer.

Termino essa conversa lembrando o antropólogo Roberto DaMatta que disse numa palestra:

“A transgressão como um problema sociológico legítimo não era um problema sociológico legítimo na sociologia brasileira porque era um problema de classe social e o dia em determinados grupos ocupassem o poder a corrupção ia acabar automaticamente. Não é verdade. Então eu acho que o que acelerou a corrupção, é: Primeiro, uma experiência em que o estado funcionou como uma moeda, uma igualdade de todos perante essa moeda. É fundamental que o meio universal de troca ajudou a governabilidade, inclusive da percepção da corrupção. Em segundo lugar, se aconteceu isso, se você tem igualdade em alguns lugares, por que não tem em outros, também?”. Roberto DaMata

 

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Doracino Naves
Jornalista, diretor e apresentador do Programa Raízes Jornalismo Cultural.




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