Christian Dunker

“A indústria do sofrimento é uma poderosa força econômica” – Por Christian Dunker

Alphaville é uma sociedade do futuro, localizada a anos-luz da Terra e comandada por um computador todo-poderoso, o Alpha 60. Todos os habitantes são iguais e não há espaço para emoções – que dirá tristeza. Alphaville é também o nome dado a um dos primeiros condomínios fechados no Brasil, localizado em São Paulo. Enquanto o primeiro Alphaville, um filme de Jean-Luc Godard de 1965, se mostra um pesadelo, o outro, inaugurado na década de 70, encarnou o sonho de consumo daqueles que buscavam qualidade de vida, conforto e segurança. Um condomínio fechado, porém, não consegue impedir a diferença e o sofrimento, e essa é uma das questões levantada pelo psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker no livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma (Boitempo, 416 páginas). Abaixo um trecho da entrevista: “A indústria do sofrimento é uma poderosa força econômica” – com Christian Dunker.

Em um mundo com leis, temos que aprender a nos divertir. Tem como aprender a sofrer? 

“Existe esse aprendizado sim, porque sofrer não é sentir dor. O sofrimento é uma experiência que implica você narrativizar algo, que pode ser tanto da ordem do mal-estar quanto da dor. Tem gente que cria histórias intermináveis em torno daquela dor no joelho direito e que, no fundo, lembra a dor que a tia tinha. Na verdade, os médicos não sabem o que fazer com isso, mas dá uma boa história. Nosso sofrimento muda se eu tenho alguém que me reconhece e que me escuta. A natureza da experiência se transforma conforme a gente fala dela ou não.Outro ponto importante é que o sofrimento é uma espécie de enlaçador social. O sofrimento aproxima as pessoas. Veja o discurso tão trivial no funeral de que “a gente só se encontra nessa hora”. É nessa hora que a história da família é reatualizada, as lembranças são feitas, novas ideias surgem. Numa civilização em que encontrar se tornou quase um sinônimo de esbarrar com os outros, o sofrimento é um lugar que ainda tem força simbólica para justificar que a gente precisa contar uma história juntos. Assim como o funeral, isso funciona no desemprego, no fim do relacionamento. Além disso, o sofrimento tem sentido político porque ele coloca, quase que espontaneamente, uma alternativa. “Diante disso, o que vou fazer? Vou me transformar, ou transformar o mundo?”. O mundo, o outro, faz sofrer também”. Christian Dunker

Leia a entrevista completa em: Psicologias do Brasil

FONTEPsicologias do Brasil
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