Confidências de um inconfidente: Tiradentes, um propósito além do que se possa imaginar

Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), nascido em Pombal, próximo de São João del Rey, no dia 12 de novembro de 1746,  era a alma do nosso grupo, mas não se importava  com o biletrismo, a poesia; achava tudo aquilo muito bonito, mas inócuo. Não há ninguém com mais coragem que ele, dá-se com honra. Fala da Bahia, faz contatos com os comerciantes do Rio de Janeiro.  Nem tolo nem ingênuo, embora fosse ardoroso e destemido.

Extraímos alguns trechos de”Confidências de Um Inconfidente” – de Tomás Antônio Gonzaga. Relatos emocionantes e não divulgados nos livros de História do Brasil:

A Inconfidência

Todos esperam de Minas o grito de Basta! O povo conspira porque está insatisfeito; com problemas graves no bolso.

Conquanto tramássemos, sabíamos que não seria fácil para nós levantarmos todo um povo, ainda que fosse sofrido e espoliado. Que sabia o povo das lutas americanas? Acaso teria lido Reynald, Mably, Adam Smith, Voltaire e outros?  Viviam de bajulações e contrabando, imersos nos trabalhos inseguros, que mal lhes garantiam o que comer, e dados ao álcool.

Desde 1785 a rainha proibira todo e qualquer recurso na Colônia, tirando por criminosa a indústria que o Marquês de Pombal tentara introduzir. Ferreiro, ourives, tecelões, viram-se prejudicados pelo decreto, Ainda nas fazendas as mulheres teciam com algodão cru, que era permitida, mas  os panos mais finos, quando descobertos, houveram de causar entre muita gente do povo prisões e mais prisões. Para se ter um alfinete, uma agulha ou um carretel de linha havia de se comprar-se à coroa.

Em Portugal os estudantes brasileiros se articulavam. Tínhamos já um contingente enorme de pessoas que se irmanavam a nós, escolhidos a dedo.

Antonio Lisboa, o Aleijadinho

O mulato feinho e atarracado, tímido e triste, abraçou desde cedo a arte de ligação com os Altos Planos, fazendo poema em pedras e madeira protestos em rostos de madonas e anjos. Mestre Lisboa, manietado pela doença, talhava pedra e madeira com a mão em cacos, envoltas por coros a lhe proteger. Certa vez me disse: “Há duas coisas boas nessa vida: amar e morrer. Já fiz a primeira. Quando chegar a segunda saberei  todas as verdades de mim.  O resto não importa”.

Silvério dos Reis

No dia 11 de abril de 1789 Silvério dos Reis foi chamado a redigir uma carta denúncia ditada pelo Visconde de Barbacena.

Aviso de que os Inconfidentes corriam perigo

De Cláudio Manoel da Costa a Tomás Antônio Gonzaga:

“Uma mulher me procurou, ou talvez um homem, pois era escuro e estava encapuzado, dizendo que seremos presos, e que eu queimasse e avisasse a todos que o fizessem com qualquer papel que me pudesse incriminar. Que o Tiradentes estava preso no Rio e logo todos o seremos”.

Os primeiros interrogatórios

Tiradentes, no presídio Ilha das Cobras foi interrogado várias vezes diante do coronel Silvério do Reis que o denunciara como líder da revolta. A tudo respondeu sem culpar ninguém. Ao contrário, toma a si toda a culpa do levante.  No dia da sentença todos choravam, pediam perdão aos juízes, mas Tiradentes não.

A morte de Tiradentes

Já raiava o dia 21 de abril de 1792, um sábado de sol esplêndido, sendo Portugal regido por D. Maria I, o vice-rei Dom Luís de Castro, conde de Resende.  Às nove horas da manhã abriu-se o portão da cadeia, e com os padres da Irmandade da Misericórdia, que iam rezar a prece de São Atanásio. Aparece Tiradentes vestindo a alva, com as mãos amarradas por grossas cordas. Dirigiu-se a ele o galé Jerônimo Capitania, escolhido para a execução da sentença. Pediu ao Tiradentes que o perdoasse pelo que ia fazer, que a isso era obrigado. Tiradentes ajoelhou-se diante do negro e beijou-lhe as mãos, respostanto:

-Assim também o Senhor morreu por meus pecados.

Curvada a cabeça do alferes passou –lhe o baraço ao pescoço, seguindo à frente a puxá-lo. Nas mãos, os padres lhe puseram um crucifixo de dois palmos, o qual Tiradentes passou a olhar, para não mais pensar em ninguém, pedindo ao Cristo o ajudasse no derradeiro instante. As cornetas soaram.  Uma paz estranha o envolvia a poucos metros da forca que avistou adiante. Um entorpecimento, e uma alegria nova no coração.  A liberdade?  Seu pensamento se elevou ao céu. Frei José começou a orar o Credo dos Apóstolos, lentamente.

Por três vezes pediu ao padre:

“Seja breve, padre”.

Tirou-lhe o carrasco o crucifixo das mãos. Chegara a sua hora. Para que a multidão não visse a fisionomia do réu e este a de todos, amarrou-lhe os olhos um tira de bretanha preta. Tiradentes pensou e clamou em espírito:

“Jesus! Jesus!Jesus!”.

Eram onze horas e 20 minutos do dia 21 de abril de 1792.

“Os padres lhe puseram um crucifixo de dois palmos, o qual Tiradentes passou a olhar, para não mais pensar em ninguém a não ser no Cristo”. Tomás Antônio Gonzaga

Extraído do livro “Confidências de Um Inconfidente” – de Tomás Antônio Gonzaga – Editora Espírita Radhu, 21ª Edição.  

Leia mais sobre este assunto: Tiradentes E A Inconfidência Mineira: História E O Outro Lado De Sua Vida

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