É conversando que a gente se desentende – Por Rubem Alves

É de madrugada, naquele intervalo confuso entre o sono e o estar acordado, que os deuses me fazem suas revelações. […] Hoje, por exemplo, os deuses revelaram-me que a separação vem dá compreensão. Para se ficar junto é melhor não entender. Isso é o oposto do que pensam os casais que vivem brigando. Acham que suas brigas devem-se do fato de não se entenderem e pedem socorro aos terapeutas quem sabe a terapia fará com que se entendam melhor, o que é fato, mas a conclusão não segue a premissa. Não é que, depois de se entenderem melhor, vão ficar juntos.

Frequentemente é no exato momento da compreensão que a separação torna-se inevitável. Nada garante que o compreendido seja gostado. Prova disso é o que aconteceu com o meu sogro, que odiava miolo. Convidado pra jantar, deliciou-se, repetiu e fartou-se com uma maravilhosa couve-flor empanada. Ao final do banquete, cumprimentou a anfitriã pelo prato divino. Mas ela logo explicou: “Não é couve-flor, é miolo empanado…”. E ele entendeu, entendimento que o catapultou na direção do banheiro mais próximo.[…]

A compreensão sempre dá briga. Imagino, mesmo, que foi por isso que Deus confundiu as línguas da humanidade na construção da Torre de Babel. As pessoas falavam a mesma língua. Falando, entendiam-se. Entendendo-se, compreendiam as opiniões umas das outras. Compreendendo as opiniões umas das outras, não gostavam delas. E daí passavam às vias de fato. Deus Todo-Poderoso compreendeu, então, que a única forma de evitar pancadaria era fazer com que elas não se entendessem. E foi então que nasceu a música, a língua que ninguém entende e todo mundo ama.

É conversando que a gente se desentende. Em um momento futuro, continuarei a minha curva, passando da igreja, lugar onde se louvam os casamentos eternos, para chegar à casa, lugar onde se sabe que os casamentos são efêmeros. Por enquanto, fica o conselho aos casais que estão brigando. Cuidado com a conversa. Da conversa pode nascer a compreensão, da compreensão pode surgir a separação. A compreensão pode ser tão fatal para casamento quanto ela foi para o jantar do meu sogro.

Previnam-se contra a terapia de casal. Ela pode produzir compreensões insuportáveis. A compreensão pode produzir a loucura. Há loucuras que resultam da lucidez… Adotem a sabedoria milenar da igreja: adotem o latim como língua da casa. E dediquem-se à música, dando preferência aos instrumentos de sopro, pois enquanto se sopra não se fala e, assim, a compreensão e a separação são evitadas.

Trecho extraído do livro: Melhores crônicas de Rubem Alves – Páginas 122 a 125 – Editora Papirus – 4º edição – Campinas – SP – 2012.





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