George Orwell

O estado de ódio no Brasil pelos olhos de George Orwell

Milton Santos costumava dizer que – “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Sendo assim, para aqueles que detêm o monopólio da força, na manutenção do poder, é indispensável que busquem alimentar a fragilidade levantada por Milton, de modo que torne o povo alienado e subserviente aos seus interesses.

Essa alienação é construída, no livro 1984 de Orwell, pelo “estado de ódio”, em que a sociedade é erigida sob pilares contrários à paz, fazendo com que os indivíduos sejam influenciados a viverem em constante ódio e medo. Há uma série de atividades ligadas ao ódio, como os dois minutos de ódio, executados diariamente e a semana do ódio. Nessas ocasiões, de forma automatizada e repetitiva os indivíduos são impelidos pelo Partido a exprimirem seu ódio pelos inimigos deste. O próprio protagonista da história, Winston Smith, que é contrário às ideias do Partido, em dada situação dos dois minutos do ódio, se vê gritando de forma inflamada contra os opositores do Partido, comportando-se de acordo com a massa ou como ele diz – “[…] fazer o que todo mundo fazia, era uma reação instintiva”.

Desse modo, através da ingerência da vida das pessoas e da repetição das suas artimanhas políticas, o Partido, em 1984, tornava as pessoas facilmente alienadas ao seu discurso. Esse recurso é o mesmo utilizado no Admirável Mundo Novo de Huxley, em que por meio da repetição, as pessoas internalizam as ideias que lhes são passadas como verdades, afinal – “Sessenta e duas mil repetições formam uma verdade”.

Ao submeterem os indivíduos ao estado de ódio (ou estes se deixarem submeter), o Partido consegue fazer com que estes esgotem suas energias com o discurso alienante, de maneira que não consigam ter energia e tempo para perceber as correntes que os prendem. Assim, o Partido se mantém no poder com uma oposição muito débil, que pouco pode fazer para mudar a situação estabelecida.

O cenário político brasileiro atual comporta-se do mesmo modo que o Partido em 1984. Alimenta-se o ódio por qualquer posição contrária a suas “ideologias”, fazendo com que haja uma ruptura dualista entre “petralhas” e “coxinhas”. Basta qualquer manifestação de pensamento para que as brigas comecem e tomem horas a fio, sobretudo, no Facebook. Até mesmo, declarações sem cunho político-partidário geram declarações que apenas confirmam que vivemos no estado de ódio da distopia de Orwell.

Sem nos darmos conta (ou sem querer darmos) estabelecemos um maniqueísmo, fragmentando o povo entre bem e mal, sendo que o discurso que alimenta esse ódio é produzido tão somente por “demônios”, de tal forma que escolher um lado e defendê-lo como o lado do “bem” é no mínimo ingenuidade, para não dizer mau-caratismo mesmo. Enquanto o povo se divide, nessa guerra de ódio, os partidos revezam-se no poder, com pouquíssima mudança de ideologia e sem qualquer pensamento que privilegie a probidade e o bem comum.

Essa fragilidade nos laços que mantêm coesos o tecido social é essencial para que classes políticas imundas tomem o poder, uma vez que como diz O’Brien, membro do Partido interno, a Winston – “O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender”. Assim, ao darmos vazão para o discurso da classe política como um todo, estamos nos fragilizando enquanto povo e permitindo que a classe política despedace o nosso poder de crítica.

Para o Partido, no livro, ou para a classe política brasileira, seja situação ou oposição, de direita ou de esquerda (se isso quer dizer ainda alguma coisa), o poder se dá pela construção de – “Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina”. Dessa forma, devemos reconsiderar o modo como facilmente nos ludibriamos e, como disse Milton, nos tornamos cegos que apenas identificam as diferenças que nos formam e esquecem que a soberania é popular, mas, se o povo está se digladiando em uma guerra de ódio, o poder passa a ser daqueles que conseguem fazer desse ódio a fonte da sua vitória.

 

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Erick Morais
"Poderia dizer o que faço, onde moro; mas, sinceramente, acho clichê. Meus textos falam muito mais sobre mim. O que posso dizer é que sou um cara simples. Talvez até demais. Um sonhador? Com certeza. Mais que isso. Um caso perdido de poesia ou apenas um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.




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