São os pensamentos divergentes que nos livram de uma história unilateral

Quem é o outro em nossa vida? De que forma o reconhecemos ao cruzarmos com ele na rua? O que o outro diz sobre nós?

Você já deve ter percebido que, ao longo de nossa trajetória, vamos construindo uma identidade e nos posicionando perante o universo de referências que nos cerca. À medida que crescemos, rapidamente o outro se torna o domínio de tudo aquilo que não sou eu, das ideias que não são as minhas e das ações que não pratico. Com o tempo, no entanto, ele acaba se provando também um local de surpresa, de encontro, de alinhamento e de aprendizado.

Exercemos nossa individualidade na esfera social, nos grupos aos quais pertencemos, quando nos entendemos como seres dotados de agência, isto é, poder de escolha, e reconhecemos que os outros também o são, aceitando como legítimas as bifurcações que aparecerem pelo caminho, as divergentes convicções, vontade e ideias.

Entenda que a prática cotidiana desse reconhecimento e aceitação não está, necessariamente, atrelada às escolhas do outro em si, ao seu teor, mas sim à prerrogativa de sua existência.

Nossa presença no universo e a percepção que temos dele são como um monumento em eterna construção. O outro, o diferente, o não-eu, desempenha um papel importante na solidificação das bases e ideias sobre as quais o monumento é erguido, justamente porque nos faz enxergar por um outro viés, porque nos empresta, por um momento, uma perspectiva inusitada. E isso nos leva um passo além.

O outro nos resgata do abismo da unilateralidade. Citando o belo discurso da escritora Chimamanda Adichie na TED Talks, o outro nos salva do perigo de uma história única, isto é, ele nos leva a questionar nossas próprias limitações, impedindo que nos agarremos a uma percepção rasa e desinformada sobre aquilo que é diferente.

Se calcularmos bem, veremos que encontro e desencontro, semelhança e contraste, são os propulsores de nossa constante transformação pessoal e do aperfeiçoamento de habilidades que nos permitem estar no mundo em equilíbrio.

O espaço do outro, então, é cada um de nós. É o ponto de comunhão no qual há descoberta, diálogo e compartilhamento daquilo que nos faz indivíduos singulares em uma realidade plural. O espaço do outro é a mesa sobre a qual uma sinfonia é composta, o campo fértil em que ideias são semeadas. É o intervalo no qual a criação do que ainda não existe torna-se possível.

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Ana Henrique
Escritora, editora e fotógrafa. Formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Antropologia pela Goldsmiths University of London. “Quando crio, busco sempre associar duas formas de linguagem: a escrita e a imagética”. Os contos Jacques, Elodie e África foram publicados na antologia Contos Fantásticos da 42, da Editora 42.




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