Clarice Lispector

“Rasgo o verbo porque não posso rasgar o sujeito”

 “Rasgo o verbo porque não posso rasgar o sujeito”. Esta frase estava na feed de notícias do meu perfil no Facebook.  Veio de uma amiga. “É de Clarice Lispector”, afirmou ela. Embora eu, a princípio, chegasse a pensar que a frase era mesmo de Clarice, tive lá minhas dúvidas. Não consigo lembrar-me se li tal coisa em textos de Lispector…

Enquanto eu luto com os meus pensamentos, a homepage é atualizada quase que instantaneamente. A primeira página é tudo que a minha paciência, e só pela manhã, permite visitar. Talvez eu compartilhe alguma notícia relacionada à cultura – literatura em especial. Talvez eu curta a foto de algum bebê sorrindo. É certo que terei o ímpeto de “rasgar o verbo”, exatamente, “porque não posso rasgar o sujeito”, em postagens políticas partidaristas e/ou de humor negro desacerbado. Mas, nunca o faço, oh, céus!, por quê? Já cheguei a escrever o comentário e publicá-lo, segundos depois deleto:  covarde demais para me envolver em polêmica,  e nessa hora lamento o fato de a opção  “não curtir” não ser uma opção a curtir.

Ora, são milhares de “amigos virtuais” para nos desejar bom dia, boa tarde, boa noite, boa hora, bom minuto, bom segundo…  E segue a primeira página – segue interminável:

“A lasanha está pronta, o molho caiu no chão branquíssimo”.

Quem postou não sabe que fez poesia – e lá se vai um poema sem ser poetizado.

“O dia está tenso. Vontade de tomar uma cerveja gelada com sal na borda do copo” – veio com a ilustração, cento e cinquenta ‘curtições’ e uma dúzia de comentários;

“Hoje ela não veio! Fiquei na expectativa, mas ela não apareceu! Lembrei-me, então, do que fiz com ela na noite passada e ela tem razão em não aparecer:  barata não suporta inseticida!” – Essa foi boa, curti. Veio do mesmo amigo que escreveu o poema e outra vez, sem saber, escreveu um microconto.

Inevitável em mim é essa mania de buscar a inspiração em todas as coisas:

“Ah,  gosto tanto de parafuso!”.

Outra frase atribuída a Lispector. Curti. Depois passei o dia inteiro recebendo notificações de dezenas de comentários dialéticos sobre a existência do parafuso e também de suas porcas. Foi um dia enroscado para a autora da postagem que teve que provar que o fragmento era de um texto de Clarice e que não, ela não estava revelando sua preferência sexual.

Tem amigo que gosta de postar receitas de fast food com a foto, é claro; tem indicações de remédios para emagrecer; uma “mistureba” espetacular que deixa o rosto da gente com cara-de-bunda-de-neném… E depois vem outras dicas ‘interessantíssimas’ de como deixar o  macarrão instantâneo  mais saboroso.

Tem gente que viaja o ano inteiro: New York, Paris, Buenos Aires, Machu Picchu… Sibéria…Sibéria? Será? Tem aqueles que não se esquecem de dizer (o dia inteiro) sobre onde ele está e sim, tem até o mapa do local: “chegando à academia Corpo & Alma; “Indo ser feliz no Pão de Açúcar”; “Num engarrafamento na Marginal Botafogo, se eu demorar a postar é porque morri afogada – toró de chuva chegando”…

Mas o que eu acho mais engraçado nas redes sociais são os desperdícios de linguagem. Como, por exemplo, comentar uma postagem dizendo – “sem comentários.” Isso não seria o mesmo que ligar para alguém só para dizer que não vai mais ligar? “Sem comentários” quer dizer que a coisa é tão ruim que não merece comentários ou que “puxa vida, isso é tão bom que fiquei sem palavras?”.

Termino de escrever este parágrafo com  a certeza de ter produzido um monólogo hipócrita. Igual àquele de quem fica horas socratizando o controle remoto da TV e dizendo que não há nada de interessante… Não é um texto para refletir sobre o tempo que gastamos com “inúteis” informações que passamos e recebemos em nossas redes sociais. Longe disso. Trata-se apenas de uma dessas crônicas, também inúteis, da rotina contemporânea. Uma catarse do”eu” camaleão que se adapta facilmente às novidades e cede sempre, e sem pestanejar, às oferendas do mundo globalizado. E daí? Se é bom ou mau –  disse Rubem Alves – o tempo dirá.

(Publicada no jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás em 03 de fevereiro de 2014).

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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