O homem-máquina de “Tempos modernos” automatizado em nossos modernos tempos

Numa época em que as produções cinematográficas ainda eram em branco e preto, “Tempos modernos”, 1936, interpretado por Charlie Chaplin, além de roteiro, direção e trilha sonora, nos apresenta como era a vida do trabalhador estadunidense, especialmente após a crise econômica de 1929, recheado de pinceladas de humor.

Numa das primeiras cenas do filme, mostra uma porção de ovelhas espremendo-se num espaço insuficiente para a quantidade ali existente e, logo a seguir, um grande número de pessoas apressadas saindo pela escada de uma estação do metrô, a maioria delas tomando a direção de uma grande indústria para mais um dia de trabalho. Essa sequência tem por finalidade deixar claro que o ritmo de vida, bem como o tratamento recebido pelos operários naquele tempo, assemelhava-se ao dispensado à outros animais.

Para Karl Marx, o trabalhador, pelo trabalho alienado, “só se sente livremente ativo em suas funções animais (…), enquanto em suas funções humanas, reduz-se a um animal”. 

O homem-máquina:

Nesse filme, o genial Chaplin retrata a maneira com o ser humano vem sendo automatizado ao longo do tempo, recebendo o tratamento de uma “máquina orgânica”, na busca desenfreada por uma produção cada vez maior, num tempo cada vez menor. Para mostrar o absurdo num grau superlativo, é apresentada uma máquina para alimentar o operário, visando a diminuição do tempo até mesmo para suas necessidades básicas.

Outro ponto a ser destacado é a loucura decorrente da mecanização do ser humano, que se reflete não apenas na repetição de movimentos adquiridos no trabalho, inclusive nos momentos de repouso, influindo na saúde mental do operário. E mesmo depois de considerado curado de sua estafa, o ser humano sai para uma “vida nova”, como sugere a legenda, que nada mais é do que a velha rotina esmagadora de trabalho, só que desta vez num outro ambiente com características semelhantes.

Segundo Marx, “na manufatura e no artesanato, o trabalhador utiliza a ferramenta; na fábrica, ele é um servo da máquina”. Assim, o homem não passa de um objeto que é “triturado” pela máquina, até ser literalmente engolido pelas engrenagens, numa cena que é o ponto alto do filme. E aqueles que são vitimas e não sobrevivem a esse ritmo, são simplesmente “cuspidos” pelo sistema.

Relação Capital x Trabalho:

Antes de as imagens serem exibidas, vê-se uma mensagem com objetivo de tentar sintetizar a atmosfera social em que o filme se desenrola: “Tempos Modernos – Uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca da felicidade”.

É um retrato de um momento de nossa contemporaneidade, marcada pelo desenvolvimento e consolidação do regime capitalista no ocidente, ficando em evidência a maneira com que o proprietário da indústria, detentor do poder econômico, tratava seus operários, não se importando com as condições de trabalho oferecidas, dando a eles um tratamento desumano.

Se por um lado a vida de empregado era difícil, os altos e baixos da conjuntura econômica reinante produziam uma situação ainda pior: o desemprego. Com ele vinha a miséria e, além dela, o desamparo e a desesperança. Essa necessidade de trabalho e produção tinha como finalidade o dinheiro para a sobrevivência, sintetizado por Karl Marx da seguinte forma: “o dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora-a”.

Dessa forma, os conflitos sociais eram frequentes, mostrando, além da dificuldade em se conseguir emprego, a luta das associações de classe por condições de trabalho mais humanas. Esse contexto social nos remete novamente à Marx: “A história da sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes”.

Atualmente:

Decorridos 80 anos dessa produção, o que fica claro para nós do século XXI é que o tempo passou, mas a ganância do sistema reinante continua cada vez mais voraz. De acordo com Karl Marx, “a vida que ele deu ao objeto volta-se contra ele como uma força estranha e hostil”.

As citações de Marx não tem como objetivo fazer qualquer tipo de apologia sobre seus ideais, uma vez que encontram resistência em muitos segmentos. No entanto, é praticamente impossível fazer uma análise do filme, sem mencionar esse controvertido pensador alemão.

Essa produção cinematográfica, mais atual do que nunca, é também uma alusão à nossa sociedade, que criou a necessidade de consumo, sem se dar conta de que é o próprio ser humano o verdadeiramente consumido pela “engrenagem” das estruturas criadas.

Fica, então, o convite para ver (ou rever) “Tempos modernos”, que retrata uma época anterior ao advento da informática, e lançar um olhar crítico sobre a nossa realidade. Desejo a todos uma boa diversão e uma ótima reflexão!

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Paulo Cesar Paschoalini
Licenciado em Filosofia, escritor de poesias, contos e crônicas, premiado em diversos Concursos Literários, inclusive com textos publicados no exterior. Seu livro de poesias “Arcos e Frestas” foi publicado em 2003. É autor de “Mar adentro, mundo afora” (poesias) e “Paredes e tons” (contos), para lançamento em breve. Tem de 20 composições musicais, em parceria. Após mais de 32 anos de Banco do Brasil, agora dedica-se à Literatura.




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