“A democracia está no altar: uma santa de quem já não se espera mais milagres”

José Saramago, português, vencedor do prêmio Nobel de literatura, questiona o quão verdadeira é a democracia:

“Tudo se discute neste mundo. Menos uma única coisa que não se discute, a democracia.  A democracia está aí, como se fosse uma espécie de santa no alta, de quem já não se espera milagres. Mas está aí como uma referência: ‘a democracia’. E não se repara que a democracia que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada porque o poder do cidadão, de cada um de nós, limita-se na esfera política – repito, na esfera política –  a tirar um governo de que não gostamos e pôr outro que, talvez, venhamos a gostar. Nada mais!

Mas as grandes decisões são tomadas numa outra esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, as OMCs, os Bancos Mundiais, as OCDEs… nenhum desses organismo é democrático. E portanto, como é que podemos continuar falando em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo. Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Os respectivos povos? Não!

Onde está então a democracia?

“Eu acho que é preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as atuais sociedades deste mundo é uma falácia, não é para atacar a democracia, longe disso. É para dizer que isto a que chamamos democracia não o é. E que, quando o for, aperceber-nos-emos da diferença. Nós não podemos continuar a falar de democracia no plano puramente formal. Isto é, que existam eleições, um parlamento, leis, etc. Pode haver um funcionamento democrático das instituições de um país, mas eu falo de um problema muito mais importante, que é o problema do poder. E o poder, mesmo que seja uma trivialidade dizê-lo, não está nas instituições que elegemos. O poder está noutro lugar”.  José Saramago em ‘Lancelot’ (1997).

“O drama está aí. O poder econômico sempre existiu, o poder político sempre esteve ligado a ele, sempre existiu um concubinato entre esses dois poderes. Mas os cidadãos estão aqui embaixo. E como eles poderiam expressar suas angústias, dúvidas e necessidades junto a este poder econômico? Em princípio, seria através do mesmo governo que serve de correia de transmissão. Não podemos ter qualquer esperança de que esses governos digam ao poder econômico que as condições que eles nos impõem são terríveis. Há um problema, que na minha opinião, é fundamental da democracia: ou ela transcende o poder da ‘bolha’ tendo uma ação fora dela, ou vamos continuar a viver na ilusão do mundo democrático”. (Agência Carta Maior em23/08/2004)

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