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A importância de ensinar a criança sobre a finitude da vida – Por Carlos Holthausen

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Uma das informações que adquirimos, já no início da nossa vida, é a de que o Universo é infinito, porém quase nunca alguém nos informa de que a vida é finita. A falta dessa informação deixa um vazio na mente da criança ou pelo menos uma distorção da realidade. No caso do vazio, ele é preenchido pela esperança de buscar a eternidade, supostamente existente no Universo. No caso de distorção da realidade, entram explicações as mais esdrúxulas que tomam o pensamento em substituição a informação escondida de nossa finitude.

Mais ainda, como consequência de um saber negado se cria um desequilíbrio emocional no indivíduo quando ele começa a ver as primeiras mortes de seus parentes, vizinhos e conhecidos, tão perto de si.

Então, a constatação da finitude que deveria ser natural produz um trauma existencial, representado pelo medo. Pior é que o medo não nos deixa ver sua origem real, passando a ser vivenciado como consequência da nossa falta de liberdade, produzindo uma verdadeira confusão entre o medo de morrer e o medo de perder o prazer do corpo.

Mais ainda, como o nosso eu tem a função de gerenciar o prazer e o desprazer da sua própria libido, a ausência de informações ou informações mentirosas acarretam dificuldades no seu gerenciamento principalmente do prazer.

O ser humano se constitui pelo saber do outro, mas essa constituição usa como tijolo do seu alicerce, as emoções que criança desenvolve a partir do contato físico como o outro, especialmente da mãe ou sua substituta.

Essas emoções desenvolvidas pelo corpo da criança obrigatoriamente energizarão palavras – significantes com seus respectivos significados – que as representarão no simbólico pelo resto de sua vida. Tal fato impõe aos pais e formadores de crianças e jovens a primazia da honestidade e da transparência de suas informações, sob pena de distorcer a realidade, na qual o futuro adulto tomará suas decisões de vida social e dotará em seu comportamento valores quase inquebrantáveis.

O desenvolvimento civilizatório da humanidade depende de que substituamos a esperança falida de infinitude das pessoas pela diminuição do espaço de tempo entre o consciente e o inconsciente, entre as emoções e o pensamento, entre o prazer e o desprazer, entre a vida e a morte, pois é neste espaço vazio que proliferam nossos devaneios, ilusões e uma exacerbada ficção que nos limitam a vivencia do corpo, energizado pela pulsão.

Se quisermos construir um mundo melhor, tratemos de preencher as lacunas do nosso saber, com pensamentos cada vez mais perto da realidade, sem distorções e principalmente sem mentiras.

Texto de  Carlos Holthausen, autor do recém-lançado O Fantástico Universo do Ser Humano – Autografia Editora. Carlos é escritor, psicanalista, ambientalista e cooperativista. A sua produção literária sempre se pautou pela discussão em torno da liberdade. São de sua autoria os livros: O Caminho da Dignidade Humana; Desenvolvimento Sustentável; A Casa de Rendez-Vous; Plataforma; Era uma vez no Brasil e Pare de Se Culpar.

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