Christian Schloe

A liquidez de Bauman reside em toda parte

A liquidez de Bauman reside em toda parte. Posso observá-la na venda dos pacotes de viagem, na incerteza de um planejamento sem reserva, no ato de estar presente em vários lugares ao mesmo tempo. A modernidade fluída deste nosso século se resume a uma constante afirmação dos verbos ser e estar.

Agora, caminho pelos emaranhados becos da antiquíssima cidade, que repousa adormecida sob o manto da madrugada. Tenho a sensação de ouvi-la inspirar e expirar ritmicamente; um movimento de pulmões imaginários que finjo acompanhar. Inalo com prazer seu ar puro, fresco e cítrico, já rarefeito em outras partes deste mundo.

Cidade da lua (e sítio das fragrâncias), era como costumava ser chamada por caravanas que negociavam aqui em dias esquecidos. De fato, o perfume que o lugar exala à noite provoca uma espécie de dormência nos sentidos, um relaxamento profundo e contemplativo perante o tecido no qual a vida é costurada.

Sob minha pele, uma estarrecedora sensação de familiaridade se alastra. Somos tangentes: eu, a cidade e o rio de tempo que nela corre.

Sigo mais rapidamente pela avenida que leva à saída sul e logo vejo os dois imensos blocos de rocha empilhados casualmente, cercados por ervas daninhas. Como eles foram parar ali, ninguém sabe, ninguém se importa. São como duas almas petrificadas, presas num ritual de celebração.

Ao tocá-los, minha percepção da realidade esbarra num outro cenário: de repente, é dia na cidade das fragrâncias noturnas. Alguns homens vestidos em túnicas coloridas e ricamente decoradas conversam e circulam por uma espécie de feira.

Todo o lugar parece cintilar sob a luz de um sol horizontal, inclusive os animais de carga, enormes bestas amareladas que, ruminando, ditam a rotina das barganhas que ali se desenrolam. Os transeuntes gesticulam animadamente e conversam em um idioma que espirala numa sequência de notas agudas, cujo ritmo acelerado eu desconheço.

A cidade que vejo agora é cercada por uma muralha dupla, construída com enormes blocos retangulares de uma pedra esbranquiçada, dilapidados e encaixados com maestria. A construção da muralha pertence a um tempo bastante remoto e nebuloso; consigo apenas observar os momentos que precedem sua ruína e o destino das partes remanescentes, a janela pela qual penetrei neste plano.

Entenda que minha presença aqui não se trata de uma via de mão dupla, mas de uma membrana plástica e espelhada que há muito tateio sem pensar nas consequências. O que vejo são apenas projeções de um ciclo que já expirou, lembranças presas a lugares e objetos inanimados, vestígios anônimos e orgânicos que aguardam serem redescobertos e experimentados.

Aos poucos, permito que a miragem se dissipe e volto ao ponto de partida. O céu já amanheceu em Jericó e um grupo de idosos turistas acompanha atento as explicações de seu guia sobre a história local.

Em momentos como este, passado e presente são como as infinitas ondulações na superfície de um oceano. E eu? Pronuncio uma prece ao tempo, enfio as mãos nos bolsos da jaqueta e saio caminhando pelas ruelas da cidade novamente, acompanhada pelo som do atrito entre meus passos e os pedregulhos do caminho.

 

 

 

COMPARTILHAR
Ana Henrique
Escritora, editora e fotógrafa. Formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Antropologia pela Goldsmiths University of London. “Quando crio, busco sempre associar duas formas de linguagem: a escrita e a imagética”. Os contos Jacques, Elodie e África foram publicados na antologia Contos Fantásticos da 42, da Editora 42.




COMENTÁRIOS