“À Ophélia, meu amor pequenininho” – Fernando Pessoa

A gente sempre espera que um poeta e escritor faça cartas de amor profundas, poéticas, até mesmo perturbadoras. Espera um ‘desmedimento’. Mas não. A genialidade não precisa ser original. Não deve ser destemida e arrebatadora, mas antes tímida, simplória; a genialidade pode ser suprimida, às vezes, pelo lugar comum. Ou talvez ela apenas se manifeste dessa forma também.

Deparei-me com as cartas de Fernando a Ophélia em meio a uma pesquisa que fazia para meu próximo livro. Encontrei “Cartas de amor” de Fernando Pessoa nas prateleiras dum sebo pelos lados da Rua de Conceição e da Travessa da Cedofeita, no Porto, nem me lembro o nome.

Entrei no sebo procurando um livro de cartas de amor, mas quando o dono me perguntou “o que é que a menina procura?”, a menina respondeu apenas duas palavras: Fernando Pessoa.

Sentei-me numa cadeira em frente de uma estante inteira que só tinha volumes dele. Muita coisa me encantou e eu queria levar tudo. Mas meus olhos encheram de lágrimas quando os pousei na lombada do livro. Eu não sabia que existia tal livro, exceto por um instinto que teria me trazido até ali, até à segunda prateleira de cima para baixo, quinto livro da esquerda para a direita. Isso eu me lembro.

 

Eu buscava uma resposta. Eu queria entender como um poeta soluciona essa charada a que hoje as pessoas nem se dão mais ao trabalho – ninguém sabe mais escrever cartas -; eu queria saber como é que se deve escrever uma carta de amor.

A resposta de F.P. a mim foi tão frustrante quanto surpreendente. Quase um tapa na cara. Porém ao mesmo tempo um afago, como se me segurasse pela mão nessa tarefa impossível que é a de por em palavras um sentimento tão absurdo.

Eu que esperava um professor a falar com a aluna, ou mesmo um deus a responder com um milagre, encontrei um Fernando tão humano quanto eu. Tão perdido quanto eu. Humilde, cheio de clichês e apelidos carinhosos, Fernando falava a Ophélia como se cuidasse de uma criança pequena. Não havia nada de perturbador e profundo na maneira direta como falava a ela – ou talvez isso fosse exatamente o perturbador: a tamanha intimidade com que lhe dirigia a palavra. 

Nunca, em sua poesia, eu havia visto uma sinceridade tão aguda. A qualidade daquelas palavras é, para mim, mais relevante que a de qualquer outra obra que eu já tenha lido do mesmo autor. Aquelas palavras não têm medo de serem julgadas, mal-entendidas, submetidas a alguma avaliação.

Aquelas cartas que não deveriam ser lidas por ninguém além de Ophélia são justamente a literatura que vale ler, por fim. São a verdade dos sentimentos sem tradução e sem as cornijas e arabescos a que a poesia acaba inevitavelmente recorrendo para quase se encobrir de artesanismos.

É muito mais poético ler o amor doce, o ciúme genuíno, a saudade de segundos de separação, ou o entusiasmo da espera colocados nessas cartas, bem como as promessas que nunca seriam cumpridas, do que os versos mofados de história. Esta poesia é eterna porque mesmo os amantes de hoje dizem as mesmas besteiras, pensam as mesmas coisas, juram o mesmo amor, e caem nos mesmos enganos.

Levantem as taças ao amor bobo e apaixonado que todos partilhamos, inclusive Fernando Pessoa. E para marcar esse artigo com um exemplo do que falo, aí abaixo, um trecho da carta de 13 de junho de 1920, para o aniversário de Ophélia e coincidentemente, um dia após ao que nós brasileiros comemoramos o dia dos namorados – fica já uma espécie de homenagem aos apaixonados, portanto:

“Meu querido Bébézinho:

Hoje não recebi carta tua, mas – é claro – não me admirei, porque já sabia, pela tua carta de hontem (a que me entregaste no carro) que não terias naturalmente tempo de me escrever.

Como esta carta te chega ás mãos amanhã de manhã, quero mandar ao meu Bébé muitos e muitos parabens, muitos beijinhos, e desejar que ella seja muito e muito feliz, que muitas vezes o anniversario se repita com o Bébé sempre contente.

O engraçado era que no anno que vem eu já te pudesse dar esses parabens de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha?”.

Muitos beijos, muitíssimos do teu, muito teu Fernando 13/6/1920

Obs.: transcrevi a carta da mesma maneira como foi publicada pela editora Ática, na primeira edição de 1978, Lisboa.

Texto de Mariana Martins

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