Africanamente livro de Gustavo Leutwiler Fernandez

“Africanamente” – Voluntariado como forma sustentável de viajar

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O que leva alguém a encarar um voluntariado no Zimbábue, em novembro de 2014, quando a epidemia de Ebola assolava o noroeste da África, ou integrar uma ONG que promove caminhada com leões em ambiente selvagem? Para o embaixador da African Impact no Brasil, Gustavo Leutwiler Fernandez, é, acima de tudo, a oportunidade de entrar em contato com outros povos e culturas, mudar estereótipos que enclausuram, e obter o autoconhecimento para encontrar propósitos de vida.

Suas experiências acabam de virar livro. Africanamente: o que vivi e aprendi como voluntário na África (Autografia Editora) são os relatos de viagem de Gustavo, voluntário no país em três oportunidades: na África do Sul, em 2013, trabalhando em um hospital infantil; no Zimbábue, em 2014, atuando na Comunicação e Marketing de uma ONG voltada à preservação ambiental; e em 2016, vivendo junto à tribo Hamar, no sul da Etiópia.

O autor narra a emoção que sentiu, por exemplo, ao se despedir dos garotos que estavam internados no hospital onde trabalhou. “Desabei em lágrimas, desesperado porque estava indo embora. Enquanto isso, as crianças me olhavam com um misto de curiosidade e indiferença. Percebi que aquele período em que fui voluntário mudou minha vida, mas, para eles, foram dias comuns, como todos os outros. Assim como eu, centenas de outros voluntários chegam e vão embora a toda hora.”

Além das histórias vividas do outro lado do Atlântico, o livro apresenta uma África que vai muito além da ideia de pobreza, fome e vida selvagem e é uma tentativa de quebrar esse estereótipo. Para Gustavo, é preciso estar em V&A Waterfront, na Cidade do Cabo, África do Sul, para se convencer de que é um lugar extremamente elegante, requintado, repleto de bares, restaurantes, lojas, shopping centers, museus e outras atrações.

“Enquanto eu estava no píer, tomando uma cerveja e jantando, diante de um visual impressionante, as pessoas no Brasil me mandavam mensagens perguntando se eu estava seguro, se tinha o que comer e se não tinha sido atacado por um leão”.

Africanamente tem um cuidado didático e apresenta ainda detalhes sobre a prática do voluntariado.

GUSTAVO E SUAS HISTÓRIAS:

“Vivendo com a tribo Hamar, na Etiópia, tive um choque inicial muito intenso quando tomei conhecimento de alguns rituais da tribo, como, por exemplo, a cerimônia do Bull Jump, em que mulheres são açoitadas. Ao compartilhar a história em minhas redes sociais, meus amigos também ficaram chocados e a tendência de reforçarmos a ideia de que essas tribos são selvagens ganhou ainda mais força. Ao longo do tempo, porém, pude entender que, independentemente de concordar ou não com tais procedimentos, eles fazem parte da cultura da tribo e sua manutenção é uma forma daquele grupo manter sua comunidade unida, integrada e viva. Uma mulher ser açoitada podia, sim, ser um aspecto negativo daquela cultura, mas, da mesma forma, havia muitos outros pontos positivos, sendo que o maior deles era o senso de coletividade daquelas pessoas: enquanto nós somos criados em um ambiente competitivo, que incentiva o individualismo e o egocentrismo. A tribo Hamar forma indivíduos que se sentem parte do grupo e têm, como principal objetivo de vida, não a ascensão pessoal, mas a manutenção daquela comunidade.”

“Em Ruanda, quando visitei o Memorial do Genocídio na cidade de Nyamata – uma igreja onde cerca de dez mil pessoas foram assassinadas – fui guiado por um rapaz cuja família inteira (os pais e irmãos) foi morta durante o massacre. Após o tour, em que vi as roupas das vítimas, ouvi histórias terríveis e visitei o túmulo comum, em que os restos mortais de algumas das vítimas estão expostos, um holandês que também acompanhou a visita perguntou ao guia como ele conseguia conviver com tudo aquilo, todos os dias. O guia afirmou que jamais irá esquecer o que aquelas pessoas fizeram, porque todos os dias, quando chega em casa, encontra-a vazia, pois sua família não está mais lá; ao mesmo tempo, ele perdoa os assassinos, porque esta é a única maneira de se chegar à paz. Ele concluiu dizendo que tem um lema que repete para si mesmo todos os dias: nunca esquecer, sempre perdoar. Nunca esquecer o que aconteceu, para que a tragédia nunca mais se repita, mas sempre perdoar, pois somente assim é possível alcançar a paz.”

“Rodando pelas estradas de Ruanda, avistei cerca de vinte prisioneiros trabalhando na beira da rodovia. Eles não estavam algemados nem presos por correntes; apenas um policial, sem armas pesadas, acompanhava-os à distância. A população local passava por ali naturalmente, sem exaltações. Refleti, então, sobre como a sociedade ruandesa trata seus cidadãos – todos eles – com extrema dignidade. Aqueles presos eram os mesmos homens que, vinte anos atrás, mataram dezenas, talvez centenas de pessoas; ainda assim, não percebi desejo de vingança por parte da população; eles apenas estavam pagando de volta o mal que fizeram, de uma maneira digna e que possibilita a reinserção na sociedade. Ainda que não estivessem fisicamente presos, não parecia que eles tinham a intenção de fugir, como se não quisessem trocar a liberdade do corpo pela condenação da própria consciência.  Ruanda foi o lugar mais inspirador em que já estive, por conta dessas duas lições: “nunca esquecer, sempre perdoar” e a diferença entre justiça e vingança”.

SOBRE O AUTOR:

Gustavo Leutwiler Fernandez é formado em Comunicação Social, viajante, voluntário, embaixador da African Impact no Brasil. Fundou a Trip Voluntária, uma instituição que tem como objetivo quebrar estereótipos de povos e culturas. Para seguir com seu trabalho, quer organizar em 2018, um tour político e voluntariado para a região da Palestina.

SERVIÇO:

Africanamente: o que vivi e aprendi como voluntário na África
Editora: Autografia
Autor: Gustavo Leutwiler Fernandez

Páginas: 306// Formato: 16x23cm // Preço: R$ 44,90

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