Há algo dentro de mim que me salva de mim mesma – Por Ana Jácomo

Muitas vezes quando estou presa nas gaiolas que ainda me limitam, a minha lembrança voa e pousa em memórias que desenham em mim um sorriso bom. Quando percebo, eu sou toda aquele sorriso, como se cada célula, naquele instante, pudesse sorrir também. Não sei se isso acontece pela alegria que o meu coração experimenta nos lugares que visita ou simplesmente porque me dou conta de que há algo em mim que continua livre. Ainda que por tantos motivos eu me sinta enredada. Ainda que por tantos motivos eu desafine no canto que ofereço à vida e, de forma mais particular, no canto que eu me ofereço.

Há algo em mim que não desaprende esse caminho. Que segue, quando, aparentemente, eu paro. Que continua a luzir, mesmo quando eu tropeço nas minhas sombras. Há algo em mim que me salva de mim. Que me leva pela mão para brincar, para conhecer o que continua vivo e belo além de toda e qualquer gaiola, além dos meus tempos de muda. Algo que me mostra uma paz intensa e verdadeira. Que não me deixa esquecer que continuo a ter asas, mesmo quando eu não voo. A memória, de alguma forma, me ajuda a lembrar de tudo isso, porque nunca desfaz a mesa onde eu posso me alimentar, sobretudo quando mais preciso, com lembranças perenes de amor.

Quando acontecem situações como esta, eu percebo que somos o que sentimos a cada instante. Que somos o lugar, não importa onde estamos. Percebo, principalmente, que, por maiores que sejam os apelos externos, não precisamos nos limitar em gaiola alguma. Nem nas que criamos para nós nem naquelas que os outros, sejam lá por quais razões, querem nos prender. Ninguém precisa continuar a se sentir preso quando pode recordar com o próprio sentimento o quanto a vida pode ser mais fácil e amorosa, embora tantas vezes as circunstâncias tentem nos convencer do contrário.

Eu sei que a memória também nos apronta surpresas desconfortáveis. Que, de vez em quando, ela nos põe em contato com lembranças que por nada nesse mundo queremos rememorar e que não existe nenhum botão que possa ser apertado para evitarmos esse encontro. Mas os benefícios que propicia superam os eventuais desconfortos. Recorro a ela várias vezes para me nutrir, mas não fico por lá além do necessário. No retorno, costumo voltar mais confiante. Ela me lembra de que tudo passa, mas que algumas dádivas conseguem transpor as aparentes cercas do tempo. Dádivas, por exemplo, como o amor compartilhado.

Ana Jácomo

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