Antes que termine o dia…

Será necessário acreditar de novo, antes que o dia acabe. Acreditar na esperança. Teimar com a verdade. Insistir na liberdade. Fazer jus a lucidez, quando for absolutamente necessário escolher caminhos.

Antes que o dia acabe, é preciso aprender a lidar com as urgências para que elas desocupem as vagas. Há que se tomar decisões sem tropeções. Cotar o valor das coisas importantes e com isso, fazer uma reserva considerável dos imprescindíveis para quando os invernos surgirem.

Antes que o dia acabe ouse morar no tempo, todos os minutos possíveis de escapismo para render poesia. Que se deseje claridade para enxergar o cenário, sem contudo ser cruel, caso ele se apresente frio, desbotado e enfadonho.  Que não se abandone o lugar pela falta de cor.

Antes que o dia acabe, que dê tempo para acolher o arrependimento das palavras que foram ditas no escândalo da incerteza. Que o relógio voe rápido para não haver tempo de abandonos, sem antes ter tentado todas as alternativas.

Antes que chegue ao final do dia será preciso passar as lições a limpo, uma a uma para não estilhaçar as verdades contidas e que dão sentido aquilo que até então foi vivido. Que ninguém descarte a dúvida que instiga rendição ao que não está na superfície. E seja como for, que se mergulhe no enfrentamento da solidão, sem terceirizar e dar crédito ao outro pela culpa da vã interpretação do necessário vazio que ronda nessa antessala da vida.

Antes que o dia vá dormir, que se estabeleça o óbvio, não vinculado a besta mania de pensar inclusive besteiras, com a maior naturalidade porque não há privação para a dor, o amor, o enfrentamento dos problemas, que sinalizam um estado não anestesiado para o lícito.

Antes que o dia se despeça de uma vez, ninguém fará uso de provas contundentes, protagonizada com a infeliz mania de mostrar a alma sem nenhuma necessidade. Seria doloroso explicar o que é mais delicado descobrir com a naturalidade de uma convivência saudável mesmo que surjam questões enrugadas. Essa é a preciosa verdade desobstruída de comodismo.

Antes que o dia escureça, não esqueça, não represente, não abandone, não tropece, sem aproveitar a essência de cada ato. Para viver bem o dia não há imunidade que valha a pena.

Texto de Ita Portugal

 Ita Portugal

 Uma escritora que já não sabe precisar quando começou a escrever. Dedica-se à temática cotidiana,  desvendando-nos os ensinamentos que a Vida, em sua contínua dialética, nos traz. Em seus textos, o afeto, a ternura e o sonho se misturam à “dor-nossa-de-cada-dia”, onde, por ironia, a existência nos acresce na exata proporção das nossas perdas. 

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