A armadilha das aparências – Uma necessária reflexão da monja Coen

Certa feita, na China antiga, o governador de uma província, homem muito rico e poderoso, chamou o abade do maior mosteiro da região para oficiar uma grande cerimônia religiosa.

A casa estava limpa, arrumada, com enormes arranjos de flores, lamparinas e incensos raros. Os convidados chegavam, acompanhados de seus guarda-costas, em seus carros caros, que naquela época eram as carruagens.

O povo pobre ficava parado, olhando todo aquele luxo. Eram os donos das terras, os grandes comerciantes, os aristocratas, os políticos, os ministros e suas mulheres ilustres, filhas de outros ilustres cidadãos locais. Passavam sem olhar para o povo, que olhava sem parar, bocas abertas, mãos estendidas, encardidas, fortes, curtidas pelo trabalho constante que engordava os grandões que agora adentravam a casa do governador.

Estes andavam empertigados, cuidando para não sujar suas roupas de seda nos pobres coitados que se amontoavam para vê-los desfilar suas joias e riquezas. Chegaram todos os convidados e depois dos cumprimentos formais esperaram, olhando a entrada, pelo abade, que se atrasara.

O abade, nessa manhã saíra a pedir esmolas pelas ruelas do povoado. Há um provérbio antigo entre os budistas de antanho que diz assim: quem dá aos monges está acumulando bênçãos e bem-aventuranças. Ora, pois, que os pobres eram quem de bênçãos e bem-aventuranças mais precisavam e eram os que mais doavam.

O abade vestia o seu manto mais antigo, aquele que usara na sua ordenação. Já era velho, puído, gasto em tantas preces, de tanta meditação. Assim caminhava o bom monge e já ia voltando ao mosteiro quando se lembrou do compromisso na casa do governador.

Então, apressou o passo. Seu cajado avançada decidido e suas roupas esvoaçavam ao vento de seu próprio movimento. A porta principal já estava cerrada. Um mordomo de nariz arrebitado interceptou a entrada do monge:

“Seu mendigo esfarrapado. Hoje é dia de festa. Afaste-se daqui”.

Surpreendido, o abade tentava dizer alguma coisa quando outro empregado atirou sobre ele um balde de água fria.

“Ah, é assim?” Juntou as mãos e agradeceu aos dois, que ficaram de olhos arregalados. O abade foi até o seu grande mosteiro. Colocou seu manto de seda, pediu por uma carruagem e rapidamente voltou àquela porta fechada. Só que agora, oh, beleza!,a porta se escancarou. Todos silenciaram. Era amado e temido por ser justo e comedido.

Havia um grande altar cheio de oferendas, velas imensas queimando. Uma cadeira belíssima, vermelha e dourada.

Pois o abada chegou, cumprimentou em silêncio a todos e aos donos da casa. Então, para grande surpresa dos presentes, tirou o seu manto de seda e o colocou na cadeira. Foi sentar-se em outra sala. Todos cochichavam e se cutucavam. O que significa isso? O governador em pessoa foi perguntar ao abade o que estava acontecendo. O abade respondeu:

“Para os senhores, a roupa é mais importante do que o monge. Que a roupa reze e abençoe a todos”.

O governador ficou sabendo o que acontecera. Pediu inúmeras desculpas com mesuras e mesuras. Foi assim que ficaram todos cientes de que a roupa não faz preces, a  roupa não faz gente.

Do livro Viva Zen, Publifolha, 2004, página 87.

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