Basta de alienação!

Em face de uma situação grave, há duas atitudes básicas. A primeira delas é reconhecer e render-se, isto é, desistir. A outra é reconhecer e enfrentar. Aquilo que Willian Shakespeare escreveu na peça Henrique IV, “Or sink or swin”, “ou afunda ou nada”.

[…] Por que alguém insiste? Quais são as razões da persistência? Existem os heróis da resistência e existem os heróis da persistência. Quem são esses heróis e por que persistem? São pessoas que não se renderam a um discurso, que é extremamente confortável, mas não tem efeito prático que é: “aqui é assim e não tem alternativas”; “a gente faz o que pode”; “a gente vai levando”.

Esse discurso não deixa de identificar os agravamentos, as feridas, mas ele é imobilizador, na medida em que se rende a uma condição de fato. […]

A expressão “crise” tem origem sânscrito, vem da palavra cria, que significa “purificação”. Tanto que existem vários exercícios em correntes da Ioga chamados “cria”. E, quando se purifica, descarta-se aquilo que não serve e se acolhe, preserva e ele aquilo que tem utilidade. Por isso, a crise não é negativa por ser crise. Uma crise só é negativa quando ela deixa em estado desanimado, inerte. […] Há algo que não pode ficar para trás, que é olharmos as crises como uma ocasião para recusar aquilo que parece fatal e instransponível. […]

Do ponto de vista ético é necessário enfrentá-las. De que modo? Com organização social, com adesão a movimentos que querem proteger a Educação decente, com participação coletiva no cotidiano, eventualmente para quem o deseja, com uma participação partidária, com presença em organizações não governamentais ou governamentais, esse é o enfrentamento. […]

Apenas cumprir a minha obrigação é desconsiderar a existência de uma situação grave. Uma pessoa que tem afeto por aquilo que faz, diante de uma situação grave, procura ter a obrigação como ponto de partida, e não como ponto de chegada. Uma pessoa que se restringe a cumprir a obrigação se fragiliza diante daquilo que poderia fazer.[…]

Essa conjunção é que gerará potência para que avanços ocorram. Portanto, pode partir de um movimento interno do indivíduo, em que tire qualquer forma de arrogância, de supor que sozinho ele baste, aquela postura de “pode deixar, eu sei o que faço”.  Não. Eu sei uma parte do que faço, mas preciso ter convicção ética, inteligência e humildade para saber que existe muita coisa que eu não sei fazer e que, me juntando a outros, talvez achemos um caminho com maior eficácia e também com maior relevância social.

(Trecho de “Educação, política e ética: basta de alienação! – Extraído do livro: Educação, convivência e ética – Mario Sergio Cortella – Editora Cortez – São Paulo 2015 – Páginas 47 a 51).





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