Bibi: O que está por trás desse “amor incondicional”?

Cláudia Dornelles

A personagem Bibi, de Juliana Paes, merece um debate entre nós, mulheres.
Em princípio, num olhar mais superficial e menos nevrálgico, pareceu que ela, a personagem, queria amar a qualquer preço. Aparentemente o amor, no caso em tela, era a mola-mestra do comportamento passional daquela mulher que, em nome do sentimento, agiu ilimitada e inconsequentemente. Não li o livro cuja trama a novela se baseia; portanto, lido com a personalidade escrita pela dramaturga Glória Perez, mas há dados dessa estória que merecem ser refletidos com coragem. A questão da passionalidade feminina recheia presídios.  Em “Presos que Menstruam”, livro de Nana Queiroz, jornalista, a percepção dessa realidade pode ser ainda melhor observada.

A questão que fadiga as mentes é o real motivo que leva várias mulheres, independentemente da classe social, a seguirem na contramão dos seus princípios e projetos de vida em busca de um amor bandido. Literalmente.

Parece-me que a questão que permeia essa decisão vai além do alegado amor incondicional, posto que, a rigor do raciocínio adulto, nada poderia ser tão incondicional a ponto de dar-lhe como única condição transformar-se, também, numa pessoa delinqüente. Em tese.

Há muitas “Bibis” nos presídios femininos, contudo, poucos lembram que elas lá se encontram. Para se ter uma clara perspectiva, 8 em cada 10 presas são abandonadas por seus companheiros e família. Enquanto, no caso dos homens, apenas 1 em cada 10 não recebe visita da família e mulher.

O que está por trás desse “amor incondicional”?  A meu sentir um mix de emoções e possibilidades. Buscando não generalizar, e após ler o livro e observar a personagem fictícia, percebi que há uma gostosa percepção de que a emoção levada às ultimas conseqüências é o significado de um amor realmente verdadeiro e capaz de romper qualquer barreira, incluindo as legalmente impostas.

Há nessas personalidades grande satisfação em sentirem-se empoderadas pelo domínio não só do homem, mas do território que passa a pertencer.
Ainda que sejam uma espécie de “rainhas trevosas” tornam-se importantes dentro do nicho criminoso e passam a não amar apenas o homem, mas tudo o que lhes seduz naquele universo volátil e fragmentado, mas onde reinam absolutas, até que sejam presas, mortas ou substituídas.

Portanto, mais que amor há um ego clamando por notoriedade e uma personalidade marcada pela necessidade de ser validada publicamente pelo homem escolhido.

Noto que a Bibi não apenas ama. Ela ama ser observada na sua loucura de amar. Ela ama se empoderar daquilo que o lado torto trouxe de benesse. Está longe de um amor genuíno e romântico. Há que se ter uma ética volátil o bastante para se deixar levar a tal ponto que não se possa voltar atrás.

No fundo, ainda que de maneira inconsciente, sabem que serão abandonadas, caso não se auto-abandonem e sigam atrás daquele parceiro, que pensou nele, apenas nele e que, como já dissemos acima, continuará individualizando seu afeto, mesmo e quando a mulher só tiver o cárcere como companheiro.

A essa altura ela terá sido substituída por alguma outra que seguirá seu mesmo destino.

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Cláudia Dornelles
Cláudia Dornelles, escritora com livros de crônica publicados, formada em Direito, estudiosa de Psicanálise Ciências Sociais e Políticas, interessada por divulgar conteúdo de Desenvolvimento Pessoal.

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