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Brasil: a bomba de lama com estilhaços predestinados

Acordar no Brasil é participar ao vivo de um capítulo de suspense: tudo pode acontecer. Pode ir preso um ex-deputado ou o ex-presidente de um partido político ou o dono de um conglomerado da construção. Pode também um ex-presidente assumir como ministro, ser removido por uma ação judicial e por outra regressar ao cargo. Tudo em 24 horas. Impossível ficar entediado.

Para a sociedade brasileira a vertigem da política atual é inusitada e enlouquecedora. Nas redes sociais a violência simbólica aumentou até plasmar-se em fatos concretos nas ruas. A palavra se fez carne (em parte porque a mesquinhez do diálogo público é colossal).

As “delações premiadas” dos implicados na Operação Lava-Jato abriram a caixa de Pandora do todos contra todos. Como em um estado primitivo de natureza animal, cada ator se mantém quieto, refugiado na mata de seu silêncio, aguardando que uma flecha o atinja: então, inicia um movimento precipitado para desvincular-se dos fatos que o cercam. Ao ser pego todos sabem que poderá envolver outros: na prisão os códigos já não existem.

Para dizer a verdade, a tarefa é ciclópica: Mensalão, pedaladas fiscais, Lava-Jato, Petrobras, propriedades não declaradas, entre outros.

A estratégia atual do Governo parece ter três caminhos. Em primeiro lugar, tentar mobilizar o sentimento das bases sociais do partido que veneram a figura de Lula. Em segundo lugar, ir para o confronto contra os vieses do poder judicial. Em terceiro lugar, seguir os libretos de campanha do também implicado João Santana: provocar medo, mostrando que se trata de um Golpe de Estado sem nenhum tipo de nuance: “Nós, a democracia que é preciso proteger” ou “Eles, os golpistas de sempre”. A estratégia binária desses dois últimos pontos é arriscada e o PT deveria lembrar-se que na Argentina contemporânea não deu resultado.

A cereja do bolo é que há quem expresse que certos políticos desejam conseguir o impeachment de Dilma para depois frear a investigação da Lava-Jato que os compromete. Tudo é possível neste chiqueiro.

Lava-Jato é o nome de uma bomba que já mostrou que tem um estilhaço para cada um. É só sentar e esperar: o impacto chegará.

(Trecho de “Brasil, o gigante encurvado” – do filósofo Nicolás José Isola – Publicado no jornal El País)

TEXTO DENicolás José Isola
FONTEEl País
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