“Cedi à tentação da vaidade retórica. Desculpem-me, do fundo do coração”

Muitas vezes , ao longo destas décadas, disse coisas grosseiras a pessoas e acabei tendo de pedir desculpas. O momento de raiva, a vaidade, o descontrole: todos as pequenas e grandes sombras do meu mundo interior podem assomar numa guerra relâmpago com minha derrotada serenidade. Tento o conselho de Hamlet: mostre-me um homem que não é escravo das paixões e eu o seguirei. Isto também acontece com a atividade acadêmica. Falando de pé, em meio a uma plateia, por vezes, escapa algo impensado, seduzido pelo impacto orgulhoso das palavras. Tenho tomado cada vez mais cuidado com isto. Quero melhorar muito. Tenho vários exemplos.

Uma frase que me incomoda ter dito é que todo leitor da revista Veja é fascista. A frase contém, ao menos, dois erros. O primeiro: a generalização, algo perigoso e tomado pelo cliché. O segundo é um equívoco teórico: conservadorismo é distinto de fascismo. Insultar com a palavra fascismo a todo conservador é um recurso retórico, eficaz, mas duvidoso quanto à agudeza.

Fui culpado de ter cedido a esta tentação. É um erro e eu peço desculpas. Provavelmente, há muitos leitores de Veja que são conservadores. Suponho que possa até existir um ou mais fascistas a ler Veja. Também suponho que possam existir comunistas a ler Carta Capital, mas nem todo leitor de Carta Capital é comunista. Evitarei a palavra fascista a não ser no contexto específico ao qual ela se aplica.

A luta para ser mais sábio continua. Recomendo sempre ao público e aos alunos que fujam de adjetivos. Preciso ouvir meu próprio conselho e evitar o farisaísmo. Quero não me reconhecer neste tipo de frase. Voltando ao Hamlet , pouco antes do duelo fatal, ao pedir desculpas a Laertes; ele argumenta: se a loucura de Hamlet te ofendeu, amigo, ofendeu também a mim. Sou a primeira vítima da vaidade retórica, ou seja, da suprema loucura minha e do mundo. Desculpem-me, do fundo do coração.

Quase sempre estamos errados no foco e discutimos uma questão que não aparece. Isto dificulta a argumentação. Com frequência, quando um casal reclama de um hábito do outro, pode estar dizendo: não aguento mais a sua companhia, mas ficam discutindo o hábito. Isso acontece em quase todas as discussões. É fundamental ter clareza sobre o foco da discussão.

Dados: preciso de dados objetivos e densos. Citações indiretas, um post anônimo, um dado vago ou uma reportagem da revista A e B costumam ser argumentos fracos. Arrumar bons dados em boas fontes confiáveis é um desafio.

Leandro Karnal

(Extraído de sua página oficial no Facebook)

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