Calouros na crise: como os jovens brasileiros estão reavaliando prioridades e adiando sonhos?

A primeira crise a gente nunca esquece. E a deles está sendo dupla. Acostumados com a prosperidade econômica herdada do Plano Real, iniciado em 27 de fevereiro de 1994, com a publicação da medida provisória número 434, os jovens brasileiros nascidos no final da década de 80 ou 90 – que fazem parte da chamada geração milênio – estão enfrentando, pela primeira vez, um cenário de forte recessão econômica em meio a uma turbulenta crise política. Muitos eram pequenos quando Fernando Collor saiu por impeachment em 1992, e outros só tinham ouvido seus pais falarem a respeito dessa passagem da vida brasileira até então.

A maioria deles viveu boa parte da vida em um país com a inflação baixa, renda e consumo em alta e a escassez de gente para preencher postos de trabalho. Viveram a fase do pleno emprego! Porém, diante de um cenário inverso, esses jovens, que até então priorizavam a realização pessoal ao procurar um trabalho e não pensavam duas vezes antes de se arriscar em novos projetos, estão reavaliando prioridades e adiando alguns sonhos. Pior, começaram a se deparar com o fantasma do desemprego.

A paulista Fernanda Lensky, de 23 anos, faz parte do grupo que viu seus planos serem alterados pela crise no mercado de trabalho. No ano passado, ela e o pai ficaram desempregados. Mãe de um menino de quatro anos, ela teve que trancar a faculdade e optou por ficar em casa para cuidar do filho e economizar nos gastos da escola do garoto, que já não estuda em tempo integral. O mesmo caminho tomou o estudante de história Nickolas Valverde, de 24 anos, que após ter sido demitido de uma empresa terceirizada teve que sair da faculdade já que a família não podia ajudar financeiramente a pagar a mensalidade. “Meus sonhos não vão mudar, infelizmente só vou ter que esperar um pouco mais para me transformar em um cientista social e professor de história”, explica.

Casos como o de Fernanda e Nickolas estão se tornando cada vez mais comuns. Só no ano passado, de acordo com dados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação entre jovens entre de 18 a 24 anos chegou a 16,8% e foi a que mais cresceu entre as faixas etárias. Segundo uma pesquisa da agência Consumoteca, nos últimos dois anos foram exatamente esses jovens os que mais adiaram ou abandonaram planos e, particularmente, os da classe C são os que mais sentem o efeito da crise econômica. “O que preocupa é que teremos uma geração menos escolarizada e menos preparada para o mercado de trabalho. Todos esses nem-nens (que não estudam e nem trabalham) podem encontrar uma nova dificuldade de inserção quando a crise passar”, afirma Michel Alcoforado, antropólogo e sócio fundador da Consumoteca.

O especialista explica, no entanto, que a crise atinge os ‘milênios’ de maneira diferente. No outro extremo, entre os mais ricos e escolarizados, a recessão afeta menos, mas os assusta mais. “Eles são os mais temerosos porque já possuem diversas obrigações, como a de pagar o aluguel, estão sobrecarregados e temem perder o emprego”, explica. Embora esses jovens não tenham cultivado muitas aspirações de bens de consumo como os da geração passada, eles estão acostumados a um estilo de vida em que se gasta muito com viagens, bons restaurantes, bares e festivais de música. “Não querem perder esse estilo de vida e, por isso, procuram empregos que estejam à altura dos seus padrões de vida, como o de concursado”.

Alguns depoimentos de jovens:

O mineiro Gustavo, de 25 anos, que trabalha na área de Tecnologia da Informação (TI), chegou à conclusão que para manter o estilo de vida almejado por ele, sem ter uma vida profissional estressante, o caminho é prestar um concurso público. “Gosto do que faço, mas o ambiente corporativo está cada vez mais cruel e competitivo. Em novembro, vou dar meu aviso prévio e focarei em estudar para o concurso”, explica. Em tempos de vacas magras, Gustavo optou por voltar à casa dos pais para tentar diminuir os custos e se concentrar no desafio de se tornar servidor público.

Preocupada com o desaquecimento do mercado, Cristina Jaber, de 31 anos, decidiu deixar de lado uma empresa que criou de mídias sociais e voltou a um emprego fixo de carteira assinada. “A possibilidade de estar empregada e com algumas garantias para enfrentar o cenário de crise atual foi decisiva para tomar essa escolha que não era a que eu pretendia”, explica.

A crise, no entanto, pode acabar gerando um lado positivo: o de tornar essa geração mais madura, segundo o doutor em comunicação Dado Schneider, que estuda há anos o comportamento das novas gerações. “Os jovens terão que engolir mais sapos no ambiente de trabalho. Antes, a maioria deles renunciava na primeira dificuldade ou desentendimento. Agora que não há tantas opções terão que lidar com chefes difíceis [mesmo contrariados]. A crise servirá para que finalmente essa geração amadureça”, argumenta. Hugo Machado, um jovem carioca de 23 anos, que no ano passado perdeu seu primeiro emprego, ilustra essa mudança: “Eu percebi que com a crise fiquei mais responsável, me espelho mais nos meus pais na hora de cuidar da casa e não fico mais jogando dinheiro fora com coisas desnecessárias. Eu saía bastante para beber, comprava muita roupa que não precisava e gostava muito de viajar”.

Schneider lamenta, no entanto, a falta de interesse da maioria dos jovens milênios na política brasileira em um momento tão decisivo do país. “Hoje vivemos um novo processo de impeachment, mas essa geração não tem lembrança do Collor e nem procura saber”, afirma.

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