Construímos nossas leis como crianças constroem castelos de areia para destruí-los depois

“Então um homem de leis disse: – E as nossas Leis, Mestre? – Ele respondeu:

– Deleitais-vos a fazer as leis, no entanto vos deleitais mais em desrespeitá-las. Como crianças brincando junto ao oceano, a construir castelos de areia com persistência para logo os destruírem alegremente. Mas enquanto construís os vossos castelos de areia o oceano traz mais areia para a costa, e, quando vós os destruís, o oceano ri-se convosco. Na verdade o oceano ri-se sempre com os inocentes. Mas que dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, e as leis feitas pelo homem não são castelos de areia, mas para quem a vida é uma rocha, e a leiam como cinzel que serve para a moldarem à sua semelhança?

– Que dizer do aleijado que detesta dançarinos? Que dizer do boi que gosta do jugo e condena o cisne e o gamo da floresta por serem seres errantes e vagabundos? Que dizer da velha serpente que não consegue despir-se da sua pele e acusa os outros de estarem nus e não terem pudor? E daquele que aparece cedo na festa do casamento, e que, depois de bem alimentado e já cansado, se vai embora dizendo que todas as comemorações são violação e os participantes violadores de leis?

– Que poderei dizer desses a não ser que também eles estão expostos à luz, mas de costas viradas para o sol? Só conseguem ver as suas sombras, e as suas sombras são as suas leis. E que é o sol para eles senão um conjunto de sombras? E o que significa reconhecer as leis senão curvar-se e traçar as suas sombras na terra? Mas vós que caminhais enfrentando o sol, que imagens da terra poderíeis reter? Vós, que viajais com o vento, que catavento poderá orientar o vosso rumo? Que lei do homem vos prenderá se quebrais o vosso jugo longe da porta da prisão? Que leis receareis se dançardes, mas tropeçardes em grilhetas inexistentes? E quem vos poderá julgar se despedaçardes as vossas roupas sem as deixardes no caminho de nenhum homem? Povo de Orfalés, podereis abafar o tambor e alargar as cordas da lira, mas quem poderá impedir a cotovia de cantar?”. Khalil Gibran

Khalil Gibran foi um poeta, ensaísta, filósofo, prosador, conferencista e pintor libanês. Nasceu em janeiro de 1883 e morreu jovem, aos 48 anos de idade, deixando uma obra profunda e muito prolífera, marcada pelo misticismo oriental – atraindo interesse do público por esta razão. Sua obra trata de temas como o amor, a amizade, a morte, a natureza e outros, com influências dispares que vão de Nietzsche, William Blake e a Bíblia. Gibran é conhecido por escrever suas obras em inglês e árabe, pois aos 11 anos de idade foi para os Estados Unidos com sua mãe e irmãos, retornando ao seu país natal quatro anos depois para completar os estudos em árabe.

Livros de Khalil Gibran: A Procissão Almas Rebeldes Jesus – O Filho do Homem; O Louco; O Profeta; Segredos do Coração; O Profeta e O Jardim do Profeta.

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