Continue acreditando, mantenha-se em movimento

Quisera eu encontrar-me com a criança que um dia fui, afagar seus cabelos e sussurrar em seu ouvido que acredite no mundo e em si mesma. Que siga sorrindo, correndo, pulando, tropeçando, caindo e levantando.

É comum perdermos, aos poucos, a habilidade de nos encantarmos perante a magia da vida.

Esquecemos dos milagres e focamos nossa atenção no que é provável, plausível. Minamos o campo da imaginação, deixando somente alguns metros de espaço livre para nos movimentarmos.

É demasiado certo que, em algum ponto de nosso desenvolvimento, começaremos a construir muros e a abandonar (ou derrubar) pontes. Tais barreiras não apenas manterão o perigo afastado, como também servirão para delimitar a linha do horizonte, o limite máximo a que podemos aspirar, tolhendo nossa concepção do que é possível. E o que é possível? Perguntaria ela.

Tudo, garota. Neste mundo, tudo é possível. Absolutamente tudo. Não há limites, a não ser aqueles que nós mesmos criamos e impomos.

Ao crescermos, nossa existência vai ficando cada vez mais tangível, imediata e quantificável, nossas ações mais previsíveis. As palavras que pronunciamos adquirem um tom mais racional, menos especulativo.

Passamos a enxergar chapéus ao invés de  jiboias engolido elefantes.

Entenda que não há algo de necessariamente errado nisso. Trata-se de um processo natural  de embrutecimento perante um mundo que cobra respostas objetivas, práticas, viáveis, e que via de regra não tem tempo para devaneios.

Só que, nesse processo, geralmente abrimos mão das possibilidades latentes, dos desafios que poderiam nos projetar para fora da zona de conforto. Deixamos secar o terreno da imaginação, trocando uma fonte de calor infinita pela chama fugaz dos palitos de fósforo.

Eventualmente, as perguntas curiosas cedem lugar a repostas pré-moldadas, muitas sem convicção. Assim, seguimos nos distanciando da criança, cercando-a com as grades do determinismo.

Se por um momento que fosse, eu pudesse segurar os ombros magricelos da criança que um dia eu fui, e, de alguma forma, resgatar esse elo perdido, encararia as profundezas de seu olhar e diria: continue acreditando, mantenha-se em movimento.

O mundo pertence àqueles que cultivam a habilidade de enxergar suas infinitas possibilidades, aos que buscam sua  essência  e seguem acreditando que paraísos desconhecidos repousam a uma iniciativa de distância de serem descobertos.

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Ana Henrique
Escritora, editora e fotógrafa. Formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Antropologia pela Goldsmiths University of London. “Quando crio, busco sempre associar duas formas de linguagem: a escrita e a imagética”. Os contos Jacques, Elodie e África foram publicados na antologia Contos Fantásticos da 42, da Editora 42.




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