Albert Einstein

Conversar sozinho pode ser um sinal de genialidade e/ou simples exercício cognitivo

Quem nunca se pegou falando sozinho? Quem nunca verbalizou seus pensamentos enquanto fazia uma caminhada e ao notar que estava sendo observado fingiu que cantava? Será que isso é “normal”? Por que falamos sozinhos? “Crianças pequenas muitas vezes conduzem uma conversa com um amigo imaginário, ou um amigo de verdade que simplesmente não está ali no momento.

Existe também a conversa interna, diálogos interiores (até rixas) que, às vezes verbalizamos para uma melhor compreensão de nossos sentimentos, pois o pensamento é uma atividade linguística e uma vez que pensamos em palavras, queremos entender os sentimentos e moldá-los de acordo com a compreensão que adquirimos deles.

Na verdade o cérebro humano adora solilóquio (monólogo), mesmo quando falamos com outras pessoas,  nós continuamente falamos para nós mesmos em nossas cabeças.

Falar sozinho ajuda a pensar mais rápido

Randy Engle, professor de psicologia da Georgia Institute of Technology, afirma que isso é parte normal do desenvolvimento de nosso cognitivo. Quando adultos falam sozinhos, disse Engle, ocorre-lhe a sugestão de algum tipo de transtorno mental, mas a maioria das pessoas o faz e suponhamos que a maioria de nós é normal, sim? Embora Engle, tenha dito não conhecer pesquisas abrangentes sobre o motivo de conversarmos sozinhos, sugeriu duas explicações:

“Uma é que, quando estamos lendo algo complexo, verbalizar ajuda”, disse ele, “pois, ao ouvi-lo, ouvir a linguagem, temos outras pistas para lembrar aquelas palavras exatas. Ouvir nossa própria memória auditiva interna, segundo se descobriu, ajuda bastante a entender uma frase especialmente complexa”.

Uma segunda razão, disse ele, envolve algo chamado de memória prospectiva. “À medida que envelhecemos, nossa capacidade de lembrar-se de fazer coisas que pretendíamos fazer piora”, disse ele. Como a fitinha no dedo, ouvir a nós mesmos falando sobre essas coisas podem nos ajudar a lembrar delas. Pode ser algo tão simples quanto falar sobre pegar as roupas na lavanderia, disse ele, mas é melhor guardar o truque para um plano importante que envolve quebra de rotina. “Se fizéssemos isso toda vez que quiséssemos nos lembrar de algo, não funcionaria”, disse ele. “Uma coisa que sabemos sobre cognição é que ela funciona melhor com algo diferente ou novo”.

Falar sozinho ajuda na concentração

Os psicólogos Gary Lupyan (Universidade de Wisconsin-Madison) e Daniel Swingley (Universidade da Pensilvânia) começaram a observar que muita gente fica murmurando sozinha enquanto está procurando certos objetos – um pote de manteiga de amendoim em uma prateleira de supermercado, aquele pedaço de queijo em sua geladeira… Quem nunca, né?

Assim, realizaram experimentos para descobrir se a coisa realmente funciona e o resultado foi publicado no “Quarterly Journal of Experimental Psychology” no ano passado. No primeiro, os voluntários viram 20 fotos de vários objetos e deveriam encontrar um em particular. Em algumas rodadas, eles recebiam um texto com o que deviam encontrar e deviam fazer isso em silêncio. Em outras, esses mesmos voluntários deveriam fazer essa busca enquanto repetiam o nome do objeto para si mesmos. Resultado: quando falavam sozinhos, eles encontravam os objetos mais rapidamente.

É preciso moderar o costume de falar sozinho

“Há momentos para se falar sozinho. Quando a pessoa se isola num canto para conversar consigo mesma ou ainda fica andando na rua e conversando alto pode ser sinal sim de uma patologia” – diz a  psicóloga Lucia Bernardini

Ela avalia que verbalizar é uma necessidade do ser humano. “As pessoas precisam se comunicar. É uma necessidade natural do homem o ato de conversar, de agir socialmente e por isso, por essa necessidade, conversa mesmo sozinho. Para falar e ser ouvido”.

Lucia explica que falar sozinho está ligado à necessidade de certas pessoas do diálogo para se tomar decisões ou mesmo para confirmar opiniões, então, quando não há com quem dialogar, as pessoas costumam falar sozinhas ou com seres imaginários. Neste último caso, ainda há o fato de aparentemente se amenizar a solidão.

Segundo a psicóloga, falar sozinho é normal, mas não quando se torna um hábito do tipo Transtorno Obsessivo Compulsivo. Aí, percebendo isso, deve procurar uma ajuda terapêutica.

Quando falar sozinho é um problema?

Patrícia Spindler, psicoterapeuta e psicóloga mestre em psicologia social e institucional, o mais comum é que as pessoas pensem em vez de precisarem falar consigo mesmas.

Patrícia diz que o hábito de falar sozinho é preocupante quando a pessoa não se dá conta de que está falando sozinha. “E isso passa a acontecer indiscriminadamente”, ressalta.

Ela comenta que a pessoa, nessa situação, desconsidera que existem outros ao seu redor. Assim, sente-se como se estivesse realmente sozinha, negando a presença de outros.

“O sujeito não estabelece contato com olhar, com a voz, com os gestos com aqueles que estão ao seu redor e tem para si que está sozinho. Ou, então, a presença dos outros não é suficiente para fazer um controle destes atos”, aponta a psicóloga

Se a pessoa está sozinha, em geral, ela não precisa falar, basta pensar. Quando a fala acompanha o desprendimento pela presença de outras pessoas ao redor, é sinal de que o processo de pensamento ou da consciência está alterado, ensina a especialista.

O tratamento para casos como esses é feito a partir de uma avaliação do que está acontecendo com a pessoa. “Pode ser um sintoma que se apresenta em diferentes situações. É preciso buscar um psicólogo para identificar os motivos e se isto traz dificuldades e constrangimentos para a pessoa”, explica.

As razões para que alguém passe a falar sozinho com frequência variam. Pessoas que abusam de substâncias psicoativas, como álcool, drogas e medicação, podem ter o estado de consciência alterado.

Mas o hábito pode se desenvolver sem nenhuma substância envolvida. “Nesse caso, pode indicar um quadro de psicose ou, no mínimo, sintomas psicóticos”, afirma Patrícia.

Referências: 

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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