Brasil: “O foco não é o auge da sujeira, mas o começo da limpeza” – Com Mário Sérgio Cortella

“Eu fiquei emocionado em 2013 quando na primeira fase, pessoas foram as ruas com seus desejos, seus sonhos, seus pedidos e, às vezes, até com a sua irritação. No entanto houve um momento muito negativo nisso, foi quando os ‘democracidas’ (os assassinos da democracia) entraram em cena, que não era a estrutura de repressão. Era uma parte dos manifestantes. Pessoas que esqueceram que democracia não é ausência de ordem. Democracia é ausência de opressão.

A democracia visa garantir a ausência de opressão. E nesse sentido quando se brutalizou a manifestação; quando ela degenerou em destruição e saque em nome de uma concepção política, assustou muita gente que foi para rua para essa parada cívica que era caminhar. Na cidade de São Paulo, onde eu moro, podiam levar cartazes e dizer para o governo ir embora ou dizer para o governo ficar, pedir mais passe livre, pedir que se abrisse os parques a noite.

O que havia era uma festa e essa festa foi interrompida por uma parte de pessoas que de fato não compreendem o valor que isso tem. Haja vista que depois daquele tempo, nós não tivemos mais movimentos assemelhados. E a nossa democracia entrou numa situação de confronto. A medida em que as forças, dentro do processo democrático, entraram em discussão, ficaram polarizadas porque se perdeu um pouco da festa cívica.

Eu posso até perdoar os que cometeram deslizes, mas eu não perdoo os democracidas. […] Os manifestos são um aprendizado da convivência em que a divergência pode vir a tona. Quando você tem numa sociedade pessoas com ideias – que não são as mesmas – o melhor é ‘como que elas convivem’ sem ir do conflito ao confronto. Num conflito tem divergência de postura, num confronto se quer anular o outro grupo, quer extinguí-lo. Nesse sentido o confronto é muito negativo.

O conflito é parte inerente de qualquer convívio. No entanto quando se tem – nas manifestações – uma expressão do direito de liberdade, de ideias, de pensamentos, de reivindicação – isso é muito forte. E o nosso país ainda não está habituado a isso. Porque em é um país de 516 anos, com uma republica com menos 130 anos e desses 130 anos da república, desde 1889, a primeira fase até 1930 era excludente: só votava quem tinha propriedades, mulheres estavam de fora, os analfabetos estavam de fora… Depois de 1930 a 1945 tivemos um período onde se mesclou uma ditadura com outros movimentos.

De 1945 a 1950 a gente ainda não tinha uma democracia. Ditaduras em sequências e nós só teríamos, de fato, uma democracia a partir de 1989 com o vigor da Constituição de 1988. Portanto ainda estamos aprendendo a andar lado a lado. E isso é só o começo”. Mario Sérgio Cortella  (vide vídeo)

“Não podemos perder o foco do que vivemos hoje no Brasil, que não é o auge da sujeira, mas começo da limpeza”. Mario Sérgio Cortella (Frase proferida durante debate no Jornal da Cultura – dia 09/03/2016)

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