By Katrina Parry

A culpa não é do mundo

Tenho dificuldade em lidar com pessoas que se fazem de vítimas. Tenho preguiça de conviver com gente que não assume seus erros e aponta o dedo para o outro, atribuindo-lhe a culpa pela maioria de suas dificuldades e fracassos.

Infelizmente tenho me deparado com gente assim. Gente com cheiro de naftalina que culpa o passado pelas dores do presente. Gente que não areja a casa, não abre as janelas e não perfuma o ar.

A culpa não é do mundo. A culpa não é do outro. A culpa não é sua. Mas está em suas mãos transformar o que quer que esteja lhe incomodando. Está em suas mãos encontrar recursos que possam lhe tirar da tristeza, do desânimo, da depressão. Que você busque ajuda, vá ao médico, tome um medicamento. Que você ore, medite, entregue seus caminhos a Deus. Que você corra, pedale, nade. Que você aprenda uma língua nova ou vá cuidar de um jardim. Que você viaje ou prepare aquela receita afrodisíaca da internet. Mas que entenda que não pode apontar o dedo na cara de ninguém, nem dizer que é infeliz por culpa deste ou daquele.

Todo mundo carrega dores, fissuras, danos. O que torna alguns mais leves que os outros é a capacidade de lidar com o que restou. A capacidade de transformar os cacos em novos vitrais. A capacidade de olhar para frente e encarar com otimismo o que virá.

De vez em quando a gente tem que lavar o corpo e ensaboar a alma. Deixar a água escorrer pela pele e levar embora o que não enobrece. Lavar o que diminui e escorrer o que empobrece. Limpar os recantos da dúvida e perfumar a pele com a clareza do hoje. Limpar, arejar, lavar, renovar.

Nem sempre nosso balde está cheio daquilo que a gente deseja. A temperatura da água pode estar abaixo ou acima do que a gente gosta, e o sabão não faz a espuma que a gente acha que merece. Mas quem disse que tudo correria conforme o planejado? Quem disse que pra viver não seria necessário uma boa dose de humildade? Então tome posse do que lhe foi reservado, e dê graças a Deus por ainda existirem possibilidades. Lave, ensaboe, deixe escorrer e limpar…

Que você faça as pazes consigo mesmo e perdoe o passado. Que perceba que é o único responsável por sua alegria e satisfação, e assim possa sentir-se pleno mesmo que as coisas não caminhem conforme a sua vontade. Que encontre seu tamanho no mundo, sem supervalorizar suas dores, seus traumas, seus rancores.

E que, lavando o cheiro de ontem, abra espaço para novos perfumes, alegrias inéditas que só quem se ama de verdade autoriza-se experimentar.

Texto de Fabíola Simões

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TEXTO DEFabíola Simões
FONTEA Soma de Todos os Afetos
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