Desisti!

Desisti. Não, não foi dos sonhos. Também não foi da busca, da determinação, da vontade de seguir sempre. Desisti das esperas inúteis. De acreditar em promessas feitas no rompante da emoção. De permitir acelerar o coração por vultos de contradição. Desisti sim das memórias doloridas, afirmando belas mentiras que o presente negou. Dos apegos exagerados que confundem a alma.
Da mesma noitada. Do mesmo drink. Mesma mesa. Mesmo porre. Mesmo dilema. Mesma calçada. Mesma lamúria. Mesma ressaca. Dos afetos ensaiados. De ser protagonista sem par. Da tempestade da chegada que acomodada, vira chuva fina que não refresca o calor.
Desisti foi da intelectualidade confusa que não traduz o essencial. Desisti foi da noite sem café, sem conversas, sem gole, sem gargalhadas, sem apetites afetivos, sem gorjetas amorosas.
Desisti foi da polidez das palavras, que deixou a verdade escondida. Desisti da frouxa decisão. Desisti de ouvir as afirmações orgulhosas de quem acha que tudo sabe. Desisti foi de não encarar o que sentenciava minhas intuições. Desisti da teimosia pelo caminho mais curto e também mais perigoso. Desisti de acalentar as fantasias, que, se regadas, cresce e toma o lugar da sobriedade. De enlouquecer os sentidos, tentando decifrar os repetidos silêncios de quem tem muito a falar.
Desisti de tentar entender a insistência da saudade, a fragilidade do coração que iludido, se expande, dilata, quebra e aos cacos se refaz para tempos depois repetir o mesmo trajeto.
Desisti sim, mas foi da covardia que cisma em trazer o enganoso conforto para justificar a incapacidade de enfrentar, recomeçar, experimentar, mudar, resistir.
Não desisti de lamber o dedo e virar a página para viver a vida.

Por Ita Portugal

COMPARTILHAR
Portal Raízes
Raízes Jornalismo Cultural - Portal, Revista Impressa e Programa de Televisão




COMENTÁRIOS