Brasil, o heroísmo anônimo de seu povo ainda não acabou: Queremos o nosso país limpo!

O fato inusitado dos episódios das crises política e econômica, é o de que o herói anônimo, desta vez, tem sido o Povo. Nenhuma personalidade política foi aceita como líder nas manifestações de rua. Quem foi se sentiu como coadjuvante. E mais: nenhum partido ficou a salvo da revolta dos internautas, numa clara demonstração de  rejeição ao tradicionalismo pernóstico dos partidos brasileiros.

As redes sociais ferveram e, o povo, como diz a cultura popular: “Tomou o pião na unha” num protagonismo sem precedentes na história recente do país.  Aqui eu me lembro de Emily Dickinson que escreveu: “Hamlet seria Hamlet inda que Shakeaspere não o criasse”.

O Povo cansado de esperar pela coerência dos políticos foi às ruas para cobrar as mudanças necessárias no sentido de aliviar o sofrimento das pessoas. Mahatma Gandhi acreditava que “Nunca um país se elevou sem se ter purificado no fogo do sofrimento”. Não que o sofrimento seja desejável, mas o fogo do sofrimento é capaz de purificar o que não presta.

A política do “toma lá, dá cá” foi jogada pela janela das conveniências. O sofrimento acabou? Claro que não. Mas a soberba falaciosa dos políticos “fez um certo bem” à nação brasileira, pois despertou o gigante que estava adormecido com a anestesia do conformismo provocado pelo engodo dos discurso cheios de sofismas. A mentira tem-se esgarçando até arrebentar o fio da confiança nos partidos e seus membros.  Para o Povo das Ruas nenhum partido tem credibilidade alguma. A mentira e a prepotência fazem mal às pessoas.

O despertar de uma nação

Uma mentira exige outra para justificar a que foi contada antes. E assim a mentira passa a ser um hábito inconcebível. O povo acordou do transe do maniqueísmo da esquerda e da direita. Nelson Rodrigues disse: “Eu não quero ser canalha da esquerda nem canalha da direita. Todos, rigorosamente todos, são canalhas”. Assim é no universo nebuloso da política. O barulho das ruas veio forte. A surrada expressão de que “Política não me interessa” foi substituída pelo “Vem pra rua”. E a imprensa é fundamental para dar voz a esse povo esquecido e não mais alienado. A maioria entendeu a cristalina certeza de que o dono do Brasil é o povo consciente que foi às manifestações. Ou então os que ficaram em casa no silêncio indecifrável, afinal o silêncio é uma virtude cristã. Nem políticos nem instituições, nem a imprensa manipulam mais vontade popular. Acabou a era da mentira; as redes sociais falam sem sobressaltos do nosso dia a dia e desce a mutamba em quem sai da linha.

Por essa ninguém esperava: o povo se libertou do domínio dos partidos e se politiza.  O resultado, espero, será dado nas urnas.

O futuro

No livro A Formação das Almas tem um pensamento interessante do autor, José Murilo de Carvalho, Companhia das Letras, 1990, em que fala sobre o imaginário da república brasileira, seus mitos e o ideal que, nesta semana de aniversário da Inconfidência Mineira, vem a propósito do que aconteceu nos últimos anos da política brasileira, especialmente quando algum líder se acha melhor do que o povo: “Na figura de Tiradentes todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independência, ou a república. Era o totem cívico. Não antagonizava com ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente do passado nem do futuro”.

A agora?  Qualquer que seja o rumo que o Senado vai tomar, os senadores sabem que o Povo das Ruas é o único dono do Brasil. Cuidado, hem?

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Doracino Naves
Jornalista, diretor e apresentador do Programa Raízes Jornalismo Cultural.




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