É hora de criarmos uma identidade brasileira baseada na ‘não-corrupção’ e na ‘não-violência’

León Tostói considerado um dos grandes mestres da literatura russa de todos os tempos encontrou o que procurava, cristalizando-se entre os princípios que norteariam sua vida a partir de ideias humanistas: recusou a autoridade de qualquer governo organizado e de qualquer igreja; criticou o direito à propriedade privada e os tribunais; pregou o conceito de não-violência; criticava abertamente a sociedade e o intelectualismo estéril… Foi inspirado nos ideais de Tolstói que Mahatma Ghandhi  logrou libertar a Índia com base na não-violência.

Tostói passou toda sua vida construindo a sua identidade. Uma identidade forte de quem se conhecia muito bem para saber que não se curvaria diante das oferendas da vida.  E que se quisesse fazer diferença no mundo, teria que fazer diferença a si mesmo. Sempre, sempre há um séquito para cada um de nós. O que pensamos, falamos e fazemos tem quem aplauda e tem quem faça deboche. Sobretudo é importante antes de sairmos por aí disseminando nossas ideias (que nem temos certeza por quanto tempo serão nossas) criarmos uma identidade pessoal.

O mestre Mário Sérgio Cortella pode explanar o que eu quero dizer de modo mais compreensível:

“A autenticidade exige a recusa a ser contraditório. Nós somos passíveis de sermos contraditórios, mas temos de ficar atentos para não sê-lo. E, sendo contraditório, precisamos ter a capacidade de corrigir esse desvio de conduta. A autenticidade vem pela possibilidade de coincidir aquilo que eu aparento com aquilo que eu sou, aquilo que faço com aquilo que digo. A noção de autenticidade parece estranha nos tempos atuais, porque até se diria que uma pessoa autêntica fica mais exposta. E isso a deixaria frágil porque vivemos numa sociedade em que a aparência não incorpora necessariamente a essência, em que aquilo que se mostra não é obrigatoriamente aquilo que se tem. Eu considero que uma pessoa autentica tem um sofrimento interno menor. É um aspecto muito positivo sair do armário, em muitos sentidos, não só em relação à orientação sexual, porque reduz imensamente o sofrimento”.

Penso que nós brasileiros estamos saindo do armário porque estamos cansados de sofrer por causa daqueles que não conseguiram, assim como Tostói, ter uma identidade focada peremptoriamente ao bem comum.  Isso me fez lembrar de um conto tibetano: o homem perseguido por leões cai a beira de um abismo e consegue agarrar, com os dentes, um galho de árvore que o mantêm suspenso. Em baixo um precipício, acima leões. Ele poderia agarrar o galho e por um tempo de sacrifício esperar que os leões se afastassem dali. Mas eis que, da copa da árvore, uma gota de mel transborda da colmeia e cai em sua boca. Na ânsia de experimentar aquele prazer, o homem abre a boca.

Difícil raciocinar em meio há tantas dificuldades. Mais difícil ainda é ser benevolente para com seus ideais humanistas diante das gotas extraordinárias de mel. O amor pelo poder e o dinheiro – o fascínio –  o fascismo – logo, a raiz de todo mal, estão aí disfarçados de ‘um bem comum’.

O que nos deixa estupefatos é vislumbrar que os que estão envolvidos em corrupção creem que fizeram o bem: se o dinheiro é público e eu sendo um funcionário público posso me apropriar dele, afinal, fiz uma escola ali, um hospital aqui e uma estrada acolá.

Tão triste perceber que nossa gente confunde obrigação com privilégio. Amados, se um pai de família trabalha para colocar comida sobre a mesa, se uma mulher é leal ao casamento, se eu dirijo dentro do limite de velocidade permitido… Isso não é virtude, é obrigação. Então se um governante faz algo de bom, não é por virtude, está cumprindo o seu dever. Somos um país muito rico. Nossa arrecadação é vultosa e os nossos governantes têm a obrigação de nos oferecer uma vida melhor.

Nossa identidade de trabalhar agindo decentemente por um bem comum é tão grande que deveríamos nos envergonhar de nossos desvios de conduta ao invés de nos orgulharmos de nosso pequeno manifesto das obrigações.

O tempo é bom. O povo tem demonstrado exatamente aquilo que não quer para si: o estigma de corruptível e a identidade de um usurpador. O tempo chamado hoje é bom e se o que não nos mata nos fortalece, sejamos fortes e determinados na criação de novo capítulo na história do Brasil: o Brasil da não-corrupção!

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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