É preciso desencorajar a heroificação de valentões que ameaçam a integridade da vida coletiva

“O valentão sempre existiu. A única maneira de conter o valentão que a sociedade encontrou na História foi fortalecer as instituições que não admitem que essa figura tenha lugar.

Freud chamava isso de civilização. Como é possível impedir que a regra seja a vitória do mais forte? Só a civilização bloqueia isso. Instituições – como a família, a escola, o Judiciário – que não admitam que aquele que usa o seu poder da força seja vitorioso.

Há 50 anos ou há mil anos o valentão já existia, talvez daqui a mil anos ele ainda vá existir.  Qual a diferença? O valentão era admirado, ele passa a não sê-lo mais. Essa perda de admiração tem de ser incentivada pela família e pela escola. Eu não posso admirar o que é incorreto, o que é malévolo, aquilo que ameaça a integridade da vida coletiva e da comunidade.

Essa heroificação do bandido, que foi proeminente durante muito tempo, especialmente no cinema, na tevê, na convivência nos 30 anos mais recentes, precisa ser descartada. A ideia de que o bandido é charmoso por ser bandido é a heroificação do *outsiders.

Precisamos de outros modelos de heróis que são outsiders porque fizeram o que precisava ser feito, com extrema coragem, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá. Esse é o outsider verdadeiro, numa sociedade em que a lógica é que “Eu leve vantagem sobre o outro a qualquer custo”.

O bom marginal, o alternativo, é alguém que saiu dessa rota óbvia de praticar o mal como forma de se proteger e decidiu, em maio a toda turbulência, praticar o bem.

Pode-se observar isso na História. Jesus de Nazaré, Sidarta Gautama, Martinho Lutero são admiráveis, são outsiders. Eu admiro os marginais do bem. Não os marginais do mal. E o que é o mal? Tudo aquilo que ameace a integridade de outras pessoas, do ambiente, da nossa convivência. Não tenho nenhuma admiração pelo atleta, pelo artista, pelo cientista que seja malévolo.

Dentro do espaço escolar o valentão não é admirável nem tem encantamento. Encantador é aquele que cuida de si, dos outros, do ambiente. É quem decide, quem faz aquilo que é difícil porque exige coragem para ser feito. Essa é uma pessoa encantadora, admirável”.

Mario Sergio Cortella em “Educação, convivência e ética – audácia e esperança” – Páginas 74/75.

*Outsider é aquele que não se enquadra na sociedade. Que vive à margem das convenções sociais e determina seu próprio estilo de vida, através de suas crenças e valores.

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