Ernest Hemingway fala de sua busca “pela palavra certa”

ERNEST HEMINGWAY – Para que quebrar a cabeça com isso? Das coisas que aconteceram e das coisas tais como existem e de todas as coisas que você sabe mais as que você não pode saber, faz-se algo por meio de sua invenção, algo que não é uma representação, mas uma coisa inteiramente nova, mais verdadeira do que qualquer outra coisa verdadeira e viva, uma coisa que você faz para viver e à qual confere, se a fizer bem feita, a imortalidade. É para isso que se escreve, e para nenhuma outra razão que eu conheça. Mas, e quanto a todas as razões que não se conhece?

Extraímos um trecho da entrevista que Hemingway em “As Entrevistas da Paris Review”, vol. 1 – São Paulo: Companhia das Letras, 2011

PR. Quando está longe da máquina de escrever, o senhor consegue afastar da cabeça o projeto no qual está trabalhando?

ERNEST HEMINGWAY – Claro que sim. Mas isso requer disciplina, e a disciplina deve ser alcançada. Tem de ser assim.

PR. O senhor reescreve alguma coisa ao ler o que escreveu até o momento em que parou, no dia anterior? Ou deixa isso para depois de terminar tudo?

ERNEST HEMINGWAY – sempre reescrevo todos os dias até o ponto em que tinha parado. Naturalmente, depois de terminar, você repassa tudo. Você ainda tem outra chance de fazer correções e reescrever quando outra pessoa datilografa o texto, e você o vê limpo, à máquina. A última chance é nas provas. Você fica grato por essas diferentes chances.

PR. Costuma reescrever muito?

ERNEST HEMINGWAY – Depende. Reescrevi o final de Farewell to Arms [Adeus às Armas], a última página do livro, trinta e nove vezes antes de ficar satisfeito.

PR. Havia algum problema técnico no texto? O que o fez estacar?

ERNEST HEMINGWAY – A busca pelas palavras certas.

PR. É a releitura o que renova a “boa veia”?

ERNEST HEMINGWAY – Reler o conduz ao ponto a partir do qual aquilo tem que prosseguir, quando você sabe que está tudo tão bom quanto possível até aquele trecho. Boa veia sempre se acha por aí.

PR. Mas há momentos em que a inspiração escapa?

ERNEST HEMINGWAY – Naturalmente, sim. Mas, se você parou sabendo o que ia acontecer depois, consegue ir adiante. Desde que se possa começar, vai tudo bem. A boia veia virá.

PR. É necessária estabilidade emocional para escrever bem? Uma vez o senhor me disse que só conseguia escrever bem se estivesse apaixonado. Pode falar um pouco mais sobre isso?

ERNEST HEMINGWAY – Que pergunta! Nota dez para a tentativa! Você pode escrever em qualquer ocasião se as pessoas o deixarem sozinho e não o interromperem. O telefone e as visitas é que são os destruidores do trabalho. Ou, melhor, se você for bastante implacável a respeito. Mas a melhor escrita se dá quando você está apaixonado. Se não se importa, prefiro não falar mais a respeito disso.

PR. E quanto à segurança financeira? Pode ser um empecilho para escrever bem?

ERNEST HEMINGWAY – Se ela vier muito cedo e você amar a vida tanto quanto ama o trabalho, então vai precisar de muito caráter para resistir às tentações. Uma vez que escrever se torna o seu maior vício e o seu melhor prazer, só a morte pode detê-lo. A segurança financeira, então, dá uma boa ajuda, afastando as preocupações. A preocupação destrói a capacidade de escrever. A saúde ruim atrapalha na medida em que desperta as preocupações que atacam seu subconsciente e destroem suas reservas.

PR. Lembra-se do momento em que decidiu tornar-se um escritor?

ERNEST HEMINGWAY – Não. Sempre quis ser um escritor.

PR. Que exercício intelectual o senhor consideraria o melhor para o aspirante a escritor?

ERNEST HEMINGWAY – Digamos que ele deva enforcar-se, por descobrir que escrever bem é difícil a ponto de ser impossível. Então ele deve ser retirado da forca impiedosamente, e forçado por si próprio a escrever o melhor que possa para o resto de sua vida. Pelo menos terá, como ponto de partida, a história do enforcamento.

PR. O senhor recomendaria ao escritor jovem o trabalho no jornalismo?

ERNEST HEMINGWAY – O jornalismo não faz mal ao escritor jovem, e pode ajudá-lo se ele sair dele a tempo. Isso é um dos clichês mais surrados que existem, e peço desculpas por usá-lo. Mas, quando você faz perguntas velhas e batidas, expõe-se a receber respostas velhas e batidas.

PR. Certa vez o senhor escreveu que a única razão para fazer jornalismo era ser bem pago. Afirmou: “É quando você destrói as coisas valiosas que possui, ao escrever sobre elas, espera receber um bom dinheiro, em troca”. O senhor vê a escrita como um tipo de autodestruição?

ERNEST HEMINGWAY – Não me lembro de jamais ter escrito isso. Mas soa tolo e violento o bastante para ter sido escrito por mim, a fim de evitar morder a isca e fazer uma afirmação delicada. Certamente, não vejo a escrita como um tipo de autodestruição, embora o jornalismo, a partir de certo ponto, possa ser uma autodestruição diária para um escritor criativo sério.

PR. O senhor já afirmou que o estímulo intelectual da companhia de outros autores tem serventia para um autor. Na Paris dos anos 1920, o senhor tinha algum “sentimento de grupo” junto a outros escritores e artistas?

ERNEST HEMINGWAY – não. Não havia sentimento de grupo. Sentíamos respeito uns pelos outros.  Eu respeitava vários pintores, alguns da minha idade, outros mais velhos – Gris, Picasso, Braque, Monet – e alguns escritores: Joyce, Ezra, Stein…

PR. Quando está escrevendo, não se sente influenciado por aquilo que está lendo?

ERNEST HEMINGWAY – Não, desde que Joyce estava escrevendo Ulysses. A influência dele não  foi direta. Mas, naquele tempo, quando as palavras que conhecíamos eram interditas, e tínhamos de lutar para achar uma única palavra, a influência da obra dele foi aquilo que mudou tudo e nos possibilitou romper com as tradições.

PR. O senhor pôde aprender alguma coisa sobre a escrita com os escritores? O senhor me dizia, por exemplo, que Joyce não suportava falar sobre a escrita.

ERNEST HEMINGWAY – Na companhia de pessoas do seu próprio ramo, você em geral fala dos livros de outros escritores. Quanto melhores forem os escritores, menos falarão sobre o que eles mesmos escreveram. Joyce era um grandíssimo escritor, e ele só explicava o que estava fazendo para idiotas. Supunha-se que os outros escritores que respeitava seriam capazes de entender o que ele estava fazendo, ao lê-lo.

PR. O senhor parece ter evitado a companhia de escritores nos últimos anos. Por quê?

ERNEST HEMINGWAY – Isso é mais complicado. Quanto mais longe você vai na escrita, mais fica sozinho. A maioria dos seus melhores e mais antigos amigos está morta. Outros se afastam. Você só os encontra raramente, mas escreve para eles e mantém o mesmo contato como se vocês estivessem juntos num café, como nos velhos tempos. Vocês trocam cartas cômicas, às vezes totalmente obscenas e irresponsáveis, e isso é quase tão bom quanto conversar. Mas você fica mais sozinho, porque é assim que você tem que trabalhar, e o tempo para trabalhar vai ficando cada vez mais curto, e se você perde tempo comete um pecado para o qual não existe perdão.

PR. Quais seriam, a seu ver, os seus predecessores literários – aqueles com os quais o senhor mais aprendeu?

ERNEST HEMINGWAY – Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turguêniev, Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, o bom Kipling, Thoreau, o Capitão Marryat, Shakespeare, Mozart, Quevedo, Dante, Virgílio, Tintoretto, Hieronymus Bosch, Brueghel, Patinir, Goya, Giotto, Cézanne, Van Gogh, Gauguin, San Juan de La Ceuz, Góngora – eu levaria um dia inteiro para lembrar de todos. E no final ficaria parecendo que estou reclamando uma erudição que não possuo, e não apenas relembrando todas as pessoas que tiveram influência na minha obra e na minha vida. Essa pergunta não é velha nem chata, mas é solene, e requer um exame de consciência. Incluí pintores, ou comecei a fazê-lo, porque aprendo a escrever tanto com os pintores quanto com os escritores. Não me pergunte como, a explicação levaria mais de um dia.

PR. Essas perguntas sobre o ofício de escrever realmente o incomodam, não é mesmo?

ERNEST HEMINGWAY –  Uma pergunta delicada não é nem um prazer nem um incômodo. Ainda acho, mesmo assim, que é muito ruim para um escritor falar sobre como ele escreve. Ele escreve para ser lido com os olhos; explicações ou dissertações deveriam ser desnecessárias. Há muito mais coisas lá do que uma primeira leitura perceberia. Não é da competência do escritor explicar o que escreveu. Ou conduzir visitas guiadas através das paragens mais difíceis de sua obra.

PR. Qual é a diferença na concepção de um conto e de um romance, em termos de construção?

ERNEST HEMINGWAY – Às vezes você já conhece a história, às vezes vai montando a trama aos poucos. Sem fazer a menor ideia do que será o resultado. Tudo muda enquanto se move. É isto o que faz o movimento que faz o conto. Às vezes é um movimento tão lento que nem parece mover-se. Mas sempre há mudança, e há movimento. No romance, em geral acontece o mesmo. Por Quem os Sinos Dobram foi um problema que carreguei por dias. No princípio, eu sabia o que ia acontecer. Mas fui inventando o que ia acontecendo a cada dia que escrevia.

PR. É fácil para o senhor mudar de um projeto literário para outro, ou o senhor continua até o fim aquilo que começa?

ERNEST HEMINGWAY – O fato de ter interrompido trabalho sério para responder estas perguntas prova que sou tão burro que deveria ser severamente castigado. E serei, não se preocupe.

PR. O senhor se vê em competição com outros autores?

ERNEST HEMINGWAY – Nunca. Eu costumava tentar escrever melhor do que certos escritores mortos, cujo valor me parecia assegurado. De um bom tempo para cá passei a simplesmente tentar escrever o melhor que posso. Às vezes tenho sorte e escrevo melhor do que posso.

PR. O senhor acha que a capacidade de um escritor diminui à medida que ele envelhece?

ERNEST HEMINGWAY – Não sei nada sobre isso. Quem faz o que sabe deve durar o tempo que sua cabeça durar.

PR. O senhor poderia dizer alguma coisa acerca do processo de transformar um personagem da vida real em ficcional?

ERNEST HEMINGWAY – Se explicasse como isso é feito, às vezes, o resultado seria um manual para advogados de acusação.

PR. O senhor faz distinção entre personagens “planos” e “redondos”?

ERNEST HEMINGWAY – Se você descreve uma pessoa, o resultado é plano, como uma fotografia, e, do meu ponto de vista, é um fracasso. Se você a modela a partir do seu conhecimento, todas as dimensões estarão presentes.

PR. Como nomeia seus personagens?

ERNEST HEMINGWAY – Da melhor maneira que posso.

PR. Os títulos lhe ocorrem durante o processo de criar a história?

ERNEST HEMINGWAY – Não. Faço uma lista de título depois de terminar o conto ou o livro. Às vezes chegam a cem. Depois começo a eliminá-los. Às vezes elimino todos.

PR. Por fim, uma pergunta fundamental: como um escritor criativo, qual lhe parece ser a função de sua arte? Por que a representação de um fato, em vez do próprio fato?

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