Esforce-se por ser feliz – Por Rubem Alves

Você não assinou a sua carta, não colocou endereço…Assim, para que você saiba que é com você que eu estou falando, vou transcrever algumas das coisas que você escreve: “São 4:08 da madrugada. Não dormi. O que aconteceu comigo? Sinto a todo momento que sou um ser que não aceita ser o que é.  Sou um poço de mentiras. Sou um poço de ilusões. Crio situações medíocres para me motivar…

Você é a pior coisa que existe… Não tenho coragem de me matar, por medo de sentir dor, e então fico aqui, sendo um robô, sem motivos algum para viver…”.

Acho que você não se mata não é por medo de sentir dor. É porque ainda brilha em você aquela luzinha que se chama esperança. Em algum lugar você sabe que viver não é a pior coisa que existe. Se você me falasse sobre sofrimentos objetivos do tipo doença, perda de uma pessoa querida, sorria fácil compreender a sua tristeza. Mas você não menciona nada disso. Sua infelicidade não vem não vem de coisas que estão de fora. Vem de dentro de você mesma.

Todas as coisas que você me contou sobre o seu sofrimento nascem de uma única ferida. É essa  ferida que precisa ser encontrada. Quando você a encontrar e a chamar pelo nome, então você terá condições de curá-la, em vez de ficar lutando contra os seus fantasmas. Você diz coisas aparentemente contraditórias. Por exemplo: “Não aguento mais ser quem eu sou” e “ só amo a mim mesma”. Se você só ama a si mesma como é que você não aguenta mais ser quem você é?

Não sei não, não conheço você, mas tenho suspeitas. Essa contradição, me parece, é sintoma de uma desgraça chama inveja. A nossa infelicidade nasce da comparação. Comparo-me com outra pessoa. Vejo as coisas boas que ela tem ou é. Dou-me conta de que nem sou o que ela é, nem tenho o que ela tem. Aí, olhando para mim mesmo, sinto-me pequeno, empobrecido, feio. E esse olhar, envenenado pela inveja, destroi as coisas boas que sou e tenho. O olhar invejoso está sempre colocado na riqueza do outro que, por meio da comparação, se transforma na minha pobreza. Ele é rico e bonito: eu sou pobre e feio. Aí o seu amor por você se transforma num amor triste. Sobra, então, a alternativa medíocre de que você lança mão: já que não posso ser objeto de amor pela minha exuberância, ofereço-me à piedade dos outros pela minha miséria. Pelo menos que os outros tenham pena de mim. Muita comiseração nasce do narcisismo.

O princípio da sabedoria é reconhecer as coisas boas que possuímos. Para o invejoso, isso é impossível. Ele gostaria sempre de ser maior do que é. O que ele é não lhe basta. Sentido da vida? O sentido da vida é simplesmente viver. Viver por viver! As crianças sabem disso. Viver por viver é saber que a vida é curta, que o momento está cheio de possibilidades de beleza e amor, que ele nunca mais se repetira, e que a única coisa que podemos fazer é agarrá-lo e bebê-lo como se fosse o último.

Pare de se lamuriar. Você já gastou uma parte da sua vida com lamentações.  Sua queixa de que a vida não faz sentido se deve ao fato de que você fica esperando coisas grandiosas. Foi você mesmo quem me disse isso, confessando-se uma poço de ilusões, sempre à espera de mais do que é possível. Olhando para coisas grandiosas você não percebe o morango que cresce ao alcance de sua mão, á beira do abismo. Cuide-se. Você tem o direito de estar nesse mundo. Esforce-se por ser feliz.

Extraído do livro “A grande arte de ser feliz” – de Rubem Alves – Página 106 – Editora Planeta – São Paulo – 2014.

TEXTO DERubem Alves
FONTEDo Livro "A Grande Arte de Ser Feliz"
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