Assemblage de memória Dimensões: 0,70 x 0,50 cm. Artista: Lionizia Goyá

“Experimentei ressurgir” – Lionizia Goyá

“A Mulher que existe em mim, reside no mais íntimo de meu ser. Adormecida em minhas entranhas, aflora em ambição ante a vaidade de viver, sobreviver, morrer e renascer.

Na sobrevida desde mundo imundo, violento e desumano agarro minha decência na eloquência de um sonho de vida melhor. Apanho os cacos de meu caminho e monto um ser desmantelado e fútil que percorreu uma jornada amarga com dores e horrores de vida mundana e santa. Tive sentimentos bons e pensamentos mesquinhos. Todos arruinados, detonados, por princípios de valores ultrapassados e medíocres. No ir e vir. Penso. Na alegria da dúvida. Deflagro. Na melodia do pressentir. Imagino. Na dança de sentimentos. Encontro:

– Não mais aquela. Mas na vida que era. Na pele da bela. Não mais como ela. Delas. Apanho na desconstrução de meus medos outro segredo […]

[…] Experimentei ressurgir…

Após ser parida de mim mesma, acordei de um salto e violentei meus conceitos e preceitos. Renasci do amontoado de dores que me sustentava para a liberdade de uma página branca de sentimentos novos e reais. Encontrei a essência: Descobri no meu mundo a aspiração de ser poeta: Sentir a vida! Ler. Querer a vida! Escrever. Parir a vida! Compor. Dar à luz! Publicar. Estar em êxtase! Ser lida…

Na presença perene de um grão de areia frente à imensidão de uma praia deserta – encontrei “ser” grande, enorme, gigante! Eu mesma – mulher/artista!”. Lionizia Goyá

Selecionamos alguns poemas e telas da artista plástica e escritora Lionizia Goyá (Caçu-GO, residente em Uberlândia-MG.

COISA GOIANA

Chuva fina
Xereré
Roça pertinho
Posso ir rapapé
Colher milho
Carregar no boné
Pra fazer feliz
Minha “muié”
Que faz cozido
Pro filho – o Zé
Grato, o pequeno
Coça meu pé
Eu retribuo
Com um cafuné
Vida boa
À-toa que é
Tem em “goiais”
Meu massapé.

Pé do CerradoLionizia Goyá

Goiana de pé rachado
Com pé suado
Corre do pé do gado
Sobe no pé do jatobá do cerrado
Encontra o pé do soldado
Cai no pé do veado
Chega no pé do esbarrancado
Sai de pé atolado
(Da canela ao pé do joelho)
Vê o pé do seu pai
Levanta de pé torto
Jura de pé junto
Reconhecer um pé de verdade.
Distingue no pé da realidade
Ter o pé desmiolado.
Dá um pontapé na atuação
Aceita um pé de oração
Começa pelo pé da razão
Envereda pelo pé da emoção
Tudo de novo pelo pé da canção.
Viaja pelo pé da inspiração
Nasce novo pé de comoção
Encontra conforto no pé do sertão.
Servidão de pé goiano:
– Vou pôr o pé na estrada!

Sou do Mundo

Minha identidade desconheço:
Sou goiana
Sou mineira
Sou cerrado
Sou Brasil
– Estou no mundo!
Meu destino desconheço:
Sou Picada de Goiás
Sou Caminho das Minas Gerais
Sou estrada sinuosa
Sou Brasil
– Vou pelo mundo!
Minha afinidade desconheço:
Sou Estrela do Cerrado
Sou Farinha Seca
Sou árvore retorcida
Sou Brasil
– Sou flor do Mundo!
Minha missão eu reconheço:
Sou patrona do cabeço
Sou defesa do apreço
Sou letra no catrameço
Sou Brasil
– Sou o Mundo!

MENTE DE POETALionizia Goyá

Na mente do poeta,
Somente mente,
Quem diz somente a verdade.
Somente a mente,
De quem mente somente,
Retraindo da mente seu sentimento mentiroso, sabe mentir.
Mente somente pelo fato de ter mente.
Somente mente a mente da gente que já mentiu.
Esta é a minha verdade! Somente minha.
Mente de poeta.
Poeta mentiroso.
Somente

Ô CAÇULionizia Goyá
Felicidade
Saudade
Alegria
E paz
Tudo isso você me traz.
Ô Caçu
Cassu
De infinita grandeza
A tua nobreza
É que seduz.

VOTAR?  Lionizia Goyá

O povo esquecido
A ladroagem solta
Os políticos ricos
O povo na mão
Todos prometem mas, só enganação.
Cada um defende o seu, é só enrolação
Parece até brincadeira mas, não é não
O povo corroído
Os políticos no poder
A ladroagem é normal
O povo sem entender


Existem pessoas boas
Mas, pouco podem fazer
O que existe lá, é melhor não envolver
Por isso continua
Uma vergonha de dar dó
Um país tão bonito
Mas que pena, e é só
Só devendo…

Espero em algum dia,
Ter melhor explicação,
Convencer a minha filha
De haver um diamão
(Diamante bruto)
Nesta podridão.

Assemblage de memória Dimensões: 0,70 x 0,50 cm. Artista: Lionizia Goyá
Assemblage de memória
Dimensões: 0,70 x 0,50 cm. Artista: Lionizia Goyá
TEXTO DEElizabeth Caldeira Brito
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Elizabeth Caldeira Brito
Escritora, poetisa. Pós-graduada em Psicologia e em Educação Física. Professora de dança. Publicou 13 livros. Publica semanalmente a Oficina Poética no jornal Diário da Manhã - Goiânia e é membro, dentre outras, da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.




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