Fechando os olhos – O poema fiel de Ítalo Campos

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“*Ítalo Campos, poeta, psicólogo, psicanalista, tem nas formas o substrato de suas representações poéticas, sejam líricasépicas ou dramáticas, não importa, o que importa mesmo é a plenitude de sua tessitura. Poeta e linguagem fundem-se, dão-se as mãos, se fazem, como no dizer do poeta e crítico literário mexicano Octavio Paz (1996, p.116-17): ‘A linguagem cria o poeta e só na medida que as palavras nascem, morrem e renascem em seu interior ele é, por sua vez, criador’.

Ítalo sabe muito bem do que fala  o poeta mexicano, pois é a linguagem sua matéria diária, a cada momento a ela se funde, por ela se faz representar, por meio dela passa a existir. A sua poesia também é resistência, suplanta a estupidez, sempre se refazendo, daquilo que fala Alfredo Bosi (1997, p.117): ‘Há na poesia como na linguagem (de que ela é a forma suprema), uma capacidade de resistir e de reproduzir-se que parece ter algo das formas da natureza’.

A sua poesia é vária, muito bem tecida, traz em si a força das representações humanas, imagens da vida, signos em rotação. Nela estão presentes o humor, a memória, a metalinguagem e o erotismo, como se poderá comprovar nesta coletânea por nós selecionada.

No poema Fechando os olhos, Ítalo Campos faz uma ‘reapropriação’, pela memória, do espaço tão caro ao poeta, que ao voltar à terra natal, recompõe os espaços perdidos, restando a ele preencher essas lacunas com a memória de resgate. Estão eles, ali, o Poeta e os outros que são ele mesmo: o menino, o estudante, o psicanalista, que têm em comum o Poeta, a poesia como motor dessa reconstrução/reapropriação.

Nesse Poema, dialogam o sertão e o litoral, o Meia Ponte e o Mar, sempre mediados pelo Poeta, que muito bem compreende serem os olhos dos Pais as primeiras janelas para sua viagem poética. O belo disso tudo é o imorredouro locus do Poeta, que no bornal da memória leva consigo a imagens da infância com as quais se refaz, sempre”. Francisco Perna FilhoExtraído da Revista Banzeiro

Fechando os olhos

Quando fechei seus olhos
Os meus arregalei
Com os seus em minha retina.
Os banhei como antes no Machombombo.
Ele pequeno, perdera
Quem lhe deu a luz.
E possível um grande vazio
E a saudade.
É possível que permaneça
O pequi
No morro da Aurora
E que, em cada mês de novembro,
A florada anuncie o recomeço.
Ele, em seus agachos
Se dobrando à fartura.
Permanece o caminho,
O trieiro em que percorrem os romeiros
À caça de frutos
Do campo em seu santuário.
O árido.
Permanecem alguns cajueiros
Que em todo mês de setembro
Florescem os olhos do menino.
Permanece o cascalho,
A areia seca em sua dureza
Fornecendo a seiva
E alguma esperança.
Reflora a mangabeira
Que jorra o leite e se faz bola
E deleite.
Permanece a árvore torta,
A casca dura,
O cerrado em pequena porção
E a morte.
Por ali sonha o menino
Entre o bezerro e a mula
Em desassossego de desejo.
Quantas léguas?
Permanece a “Tapera”
De pequenas janelas abertas
E muitas vozes, outras vozes.
Não permanece o pé-de-manga
Apenas a inocência e a vontade.
Vai, vá! Para lá de Corumbá,
Atravessar o rio das almas,
A terra das antas, o morro do Mocó,
A terra alta.
Atravessar o vale de lágrimas.
Vá ver, para lá há mais.
Também há jatobá, caju, pequi, araçá,
Mangaba e gentis.
Há mais horizonte e vereda,
“Meia-ponte” para molhar os olhos secos,
Outra vereda, outro verde, salvação.
Outra árvore torta, seara vermelha,
Solidão!
Aposta o apóstolo,
Noviço, novato, calouro,
Calado.
Ao pé da Santa prostrado, promete
Ser-lhe fiel.
Fiel até a morte!
Percorre ajoelhado o salão da virgem,
Nela se revigora, se entrega. Integra
E carrega.
Filho do cerrado, olhos secos,
Peito de aroeira,
Finca o pé na poeira e olha por frestas
Abertas, à custa.
Pesa. Só pesa a nova lida.
Permanece a dor e não permanece
O sabiá, o leitão, a coruja e a mula.
E pesa o papel, e pesa o lápis desse peso
Que pouco vale.
E segue, e sangue e suga
Em nome do pai.
E mira o voo da flecha e dobra o arco.
E lança. Lança-se!
Sob a graça e mãos da Virgem
Salta.
Feito o roteiro,
Cumprido o fato,
Realizado o trajeto,
Atingindo o alvo
A casa torna paramentado.
De terno.
Dedo ornamentado de rubi,
Calçado de sapato,
Chapelado de Prada.
Aroeira arfante, olhos marejados
Abraça a noiva, abraça a Santa,
Abraça o pai e a cidade.
Toda cidade e cidadão,
Todo menino, mendigo
E ladrão. Toda beata,
Toda senhora e “rapariga”.
A cidade abraçada,
A terra amada. A mãe e o pai.
Composta a trindade nas asas do tempo
Alça voo, frutos explodem,
Sementes germinam, raízes alastram.
Permanecem alguns cajueiros,
A coruja e a mangaba.
Dentro de mim
Não se acabam;
Principio e fim.
Quando eu cerrar seus olhos
Que, secos permanecem
Por secura de cerrado
E cerrados ainda brilham
Clareando esta estrada torta
E pedrada.
E brilha a secura-guia empuxando
Da minha agonia.
E chama, como chama
O fogo que aquece e indica
O outro lado.
Para eu continuar neste ar
Que não separa
Mar e sertão. Sob o céu
Que é de todos e este chão que liga
Sem distância e prazo
Pela luz dos olhos secos,
banhados de água benta.
Fechados os seus olhos permanece luz
E reflexos.
Serei seu lixeiro, catarei seus restos,
Rastos e monturos, farei outros passos,
Acrescentando futuros.
Ele permanece. Transmutado

* Ítalo Campos nasceu em Uruaçu, Goiás e reside em Vitória, Espírito Santo desde 1976. Psicanalista e psicólogo formado pela UFMG, é membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. É também membro da Academia Espírito-santense de Letras e da Academia Uruaçuense de Letras. É criador do “Varal de Poesias”, evento cultural que se realiza anualmente no “Vagão Espaço de Arte” em Manguinhos (Serra/ES). Com ampla participação na vida cultural e política da cidade, o escritor colabora regularmente na imprensa com artigos e resenhas. Destaca-se ainda sua participação como organizador e importantes publicações na área da saúde: “Drogas em Debate” (1991); “DST/AIDS: uma experiência capixaba” (2009). Publicou: Interiores (1995), O Sábio e o Mentecapto (1998), Sabor da Letra (1999), Anil Bucólica(s) (2006) e Embaralhando Palavras (2011).

 

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