Os palhaços assustadores: A psicologia explica este fenômeno social

Desde o final de agosto surgiram nos Estados Unidos notícias de que homens vestidos de palhaços e com máscaras assustadoras, portando facas estariam atacando pessoas, especialmente crianças em troca de dinheiro. Desde então, relatos similares se espalharam pelo mundo, como Canadá, Inglaterra, Austrália, México e agora também no Brasil.

As autoridades não conseguem explicar os ataques dos palhaços. Mas a psicologia explica: “Alguém viu um no Sul de Ohioville hoje”/; – “Meu amigo em Long Island  palhaços foram vistos na borda das madeiras atrás de sua escola!”; “Palhaços foram vistos novamente na Carolina do Norte!”; “Palhaços assassinos chegam ao interior de Goiás”.

São algumas pessoas que se vestiram como palhaços para aproveitar essa histeria, na esperança de assustar as pessoas? Vamos dar uma olhada na razão pela qual os palhaços são tão assustadores.

A Psicologia Evolucionista Social do mal 

Nas últimas décadas, um dos grandes avanços nas ciências sociais é o conceito do mal como um recurso evocado de situações sociais e não como uma disposição de certos indivíduos.  O psicólogo social Phil Zimbardo(2007) forneceu elementos de prova em toda a sua longa carreira, de que existem situações específicas que levam quase todas as pessoas a se envolver em comportamento que seria considerado “do mal”.  E há situações específicas que facilitam o comportamento social nos outros.

Uma das mais importantes variáveis documentadas por ele, que parece prever um comportamento antissocial, é a desindividualização, um estado em que a identidade  se esconde. Por exemplo, se você estiver on-line em uma sala de bate-papo anônimo você está desindividualizado, e assim estão todos’ na sala. Se você é o cara com o traje do monstro na festa de Halloween, cobre o corpo com máscara e não revela a sua identidade, você está desindividualizado.

As pessoas também são muito mais propensas a se envolver em comportamentos aberrantes quando elas estão em um estado de desindividualização. Os pesquisadores descobriram que os indivíduos desindividualizados são mais propensos a ferir os outros, enganar, roubar, mentir e até matar sob tais condições.

De uma perspectiva evolucionária (Smith, 2008; Geher, 2014), podemos pensar em desindividualização como uma ferramenta que indivíduos utilizam frequentemente durante atividades como a guerra. Nas batalhas em toda a história humana, os soldados usam todos os tipos de fantasias, uniformes e máscaras. Essas máscaras tiram a individualidade de qualquer soldado em particular, de modo que todos eles se “benefíciam” dos efeitos dadesindividualização. Este é um comportamento social que os levam a serem melhores na guerra.

Quando as pessoas estão em um estado de desindividualização podemos esperar que elas ajam no limite do pior. Isto ajuda-nos a compreender alguns fenômenos díspares da aparência:

  • Operadores de telemarketing, que nunca podemos vê-los, podem ser muito irritantes, fingir, por exemplo, (ou não entender frases que a gente diz, como: (“Eu não posso falar agora”).
  • Os piores comentários nos sites são, muitas vezes, os anônimos.
  • Carrascos costumam usar máscaras. *
  • Os assassinos em filmes de terror famosos como Halloween,Scream, e Sexta-feira 13 usavam máscaras.
  • Guerreiros espartanos usavam as famosas máscaras de batalha durante a guerra, e …
  • Os palhaços são assustadores.

Esta tomada psicológica-evolutiva-social baseada na desindividualização integra uma série de fenômenos que parecem não estar relacionados. Mas eles são importantes e claramente relacionados.

Palhaços são modelos da desindividualização

Uma das marcas de palhaços é a desindividualização. Eles usam roupas engraçadas para parecerem bonzinhos. Eles também usam perucas malucas. E  costumam usar maquiagem completa. (E não se esqueça do nariz de palhaço.) Embora esses recursos tenham  várias funções, do ponto de vista social e psicológico, a função primária é a desindividualização. Uma vez que você está na sua roupa de palhaço, sua verdadeira identidade se torna profundamente protegida  e ninguém o reconhece. Você não é mais “Joseph Harrington,” você é “Mr. Bibbles! “. E como uma pessoa desindividualizada o seu comportamento pode mudar de muitas maneiras.

Em seu tratado sobre a história evolutiva da guerra, David Livingstone Smith (2008) fornece evidência de que adesindividualização e sua prima psicológica, a desumanização retorna há milênios.  Em grande parte da nossa história evolutiva, as pessoas foram expostas aos efeitos antissociais da desindividualização. Por esta razão, podemos, naturalmente, ficarmos assustados quando vemos alguém em um estado de desindividualização. Alguns podem argumentar que é provável uma lembrança cármica de vidas passadas. E adivinha? Quando olhamos para um palhaço, estamos olhando para alguém em um estado desindividualizado. A aparência assustadora entra no terreno psicológico e é provável que tenha sido dessa forma desde tempos remotos.

Desindividualização e o local de trabalho

Ocorre-me que palhaços são raros, especiais, porque eles são desindividualizados no seu contexto de trabalho. Na maioria dos contextos de trabalho, as pessoas devem ser, obrigatoriamente, individualizadas. No supermercado a pessoa usa um crachá. No consultório médico a enfermeira e o médico se apresentam no início de um procedimento. Cada aluno sabe o nome e o rosto de seu professor. Um advogado de defesa não usa uma máscara durante seu trabalho (embora ele ou ela possa ser um excelente intérprete da lei). E assim por diante.

Os palhaços são diferentes: a desindividualização é uma parte necessária do seu trabalho. Eu diria que esta desconexão é determinada em grande parte e explica porque os palhaços parecem ter um significado específico quando se trata do fator ‘transformação’ em nosso mundo moderno.

Ponto de partida

Como acontece com qualquer fenômeno cultural é provável que muitos fatores em ação no pandemônio relacionados com o palhaço estejam varrendo a  Europa, os Estados e o Brasil. Mas a desindividualizaçãodesempenha um papel importante na medida em que os palhaços aparecem sobre estas influências.

Se você ver um palhaço na borda da floresta em, digamos, Sul Ohioville Road, lembre-se de que ele ou ela provavelmente é uma pessoa igual a você: Uma pessoa com sentimentos, de “carne e osso”. Assim, a minha sugestão é … mude de caminho, e não olhe para trás!

Os palhaços são desindividualizados e assustadores!

*Bob Dylan: “O rosto do carrasco é sempre bem escondido”.

Tradução e adaptação: Portal Raízes – Via: Psychology Today – Fontes: Luisma Tapia/Shutterstock, Peter Linforth/Pixabay

Referências

 

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