“A escuridão de agora me convence da urgência da luz”

Estou na Ásia. Faz quase dois dias que penso, entristecido, em mais episódios de terror. No mar de informações e julgamentos, tento colocar os pés no chão e pensar na combalida humanidade. Preciso escrever para erguer uma vela em meio à escuridão. Outros estão fazendo o mesmo. É pouco, mas é um começo. Vamos por partes:

As mortes por ataques fora da Europa/Eua são pouco consideradas pela imprensa. Somos seletivos no nosso luto e na importância das vítimas. Por exemplo, o grupo Boko Haram fez atentados em Maidugari, Nigéria. Nem chegou a ser noticiado. Houve mais de 150 mortos em poucos dias. Desde 2009, o grupo fundamentalista na Nigéria já provocou a morte de prováveis 17 mil pessoas. De novo: impacto de ataques a NY ou Paris é, infinitamente, maior.

O terrorista-fundamentalista é um “loser”, um perdedor. Sua estratégia é o ataque suicida porque ele reconhece o fracasso da sua causa. O fundamentalismo só pode produzir mártires individuais, jamais uma alternativa política viável ou sequer um controle dos seus inimigos. Mas são atentados espetaculares, que não representam, de fato, uma nova ordem. Mas, então, quem ganha e quem perde?

Ganha o governo de François Hollande, errático e impopular até agora. Como Bush II, ele crescerá após o terror. Ganha o governo de Bibi em Israel, sempre insistente no ponto de vista na repressão ao terror. Ganha a direta europeia e sua política de barrar a onda de imigrantes da Síria e Magreb. Ganha a indústria de armas e de segurança, muito. Ganham os neoimperialistas no Oriente Médio e África. Ganham os xenófobos, racistas e islamofóbicos em geral. Ganham até Dilma e Cunha , que saem do foco por dias. Ganham muitos. Perdem as vítimas no meio desta tragédia; as famílias enlutadas, mortas por covardes imbecis que imaginam falar em nome de Deus. Perde o diálogo e a tolerância

A razão é insuficiente para explicar tudo. A violência humana transcende o campo racional . A pulsão de morte excede o cartesianismo. A escuridão de agora me convence da urgência da luz. A luz é a liberdade, o diálogo e a convivência. Creio nisto. Há bárbaros fundamentalistas nos confins do Iraque e há bárbaros ocidentais bem instalados e ricos. Há muitos que pagam com a vida por este avanço do horror, em Paris, na Nigéria e no Iraque. Que os mortos repousem em paz e que os vivos lutem por uma nova paz.

Texto de Leandro Karnal 

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