Onde estão os nossos heróis, Betinho?

Num país carente de heróis, é reconfortante relembrar que por aqui passou um anjo guerreiro de olhar doce chamado Herbert José de Souza, o Betinho (1935-1997). A trajetória do sociólogo e líder humanista mineiro que lutou por grandes causas, apesar da saúde frágil, é o  o condutor de Betinho – A Esperança Equilibrista (Documenta Filmes), com direção e roteiro de Victor Lopes (foto à esquerda). Após temporada nos cinemas, o filme será exibido pelo Canal Brasil e em plataformas de vídeo sob demanda.

Betinho aprendeu a duelar muito cedo. Após seu nascimento, o primeiro baque: diagnóstico de hemofilia, doença hereditária que provoca hemorragias prolongadas por traumatismos mínimos e que também atingiu seus irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário. Dos 15 aos 18 anos, a tuberculose o manteve isolado num quarto. Sobreviveu. Mais tarde, a oposição à ditadura militar desembocou no exílio e, nos anos 1980, de volta ao Brasil, em plena peleja pela redemocratização, o vírus HIV o golpeou em uma das transfusões de sangue a que era obrigado a se submeter periodicamente devido à hemofilia.
Debilitado, mas sempre otimista, encampou, nos anos 1990, a luta contra a fome e a miséria, além do combate à aids, doença que causou a morte dos seus dois irmãos e a sua própria. Com a fibra dos idealistas, mobilizou brasileiros a construir um país mais justo.

Em 1992, Betinho liderou o movimento pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então presidente Fernando Collor, em setembro do mesmo ano. Esse movimento plantou os alicerces do movimento Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. A partir da participação de Betinho, o problema da fome e da miséria tornou-se visível e concreto para todos os brasileiros.

Herbert de Sousa abriu várias frentes de trabalho, principalmente no seu relacionamento com a mídia. Em 1993, foi considerado “homem de ideias do ano”, pelo Jornal do Brasil. Depois de muito lutar contra a doença, Betinho faleceu em 1997, aos 61 anos, em sua casa, no bairro do Botafogo.

Se uma pessoa com essas limitações fez tanta coisa, o que a gente está fazendo com todas as nossas faculdades à disposição? Betinho é o nosso grande símbolo humanista, uma espécie de Gandhi ou Mandela brasileiro e nos mostrou que é possível atravessar sucessivas adversidades sem dar as costas à esperança.
Para nos inspirarmos à lutar por nossos direitos: frases de Betinho

“O Brasil tem fome de ética e passa fome em consequência da falta de ética na política”. Betinho

“O jovem não é o amanhã, ele é o agora”. Betinho

Por conter as provas de um jogo injusto é que o orçamento é tão complicado, técnico, oculto, disfarçado, arredio”. Betinho
 
“Solidariedade, amigos, não se agradece, comemora-se”. Betinho
“Não sou otimista babaca, mas otimista ativo”. Betinho
“Miséria é imoral. Pobreza é imoral. Talvez seja o maior crime moral que uma sociedade possa cometer”. Betinho
“Em resposta a uma ética da exclusão, estamos todos desafiados a praticar uma ética da solidariedade”. Betinho
O que nos falta é a capacidade de traduzir em proposta aquilo que ilumina a nossa inteligência e mobiliza nossos corações: a construção de um novo mundo”. Betinho
“Quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade”. Betinho
“Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura”. Betinho
“A terra e a democracia aqui não se encontram. Negam-se, renegam-se”. Betinho




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