Breve relato de Mia Couto sobre descobrir-se como homem sensível para criar suas personagens

Mia Couto, escritor moçambicano, nesta entrevista, concedida a Eliane Brum e Raquel Cozer, explica como tornar real uma personagem feminina e conta sobre como ele deixou aflorar a mulher que existe dentro dele, assim como existe dentro de todo mundo, e deixou que ela o ocupasse. O evento foi realizado por Fronteiras do Pensamento e Companhia das Letras, em agosto de 2013. Segue, abaixo a compilação de sua fala e o vídeo:

“A princípio, confesso que, tive alguma dúvida de como eu poderia emprestar verdade a uma personagem que era de um outro sexo sendo eu resultado de uma geração em que essa coisa: eu sou homem, é preciso dar prova de ser homem, não chorar, não ter grandes sensibilidades à flor da pele… Tudo isso estava muito presente. Eu sou o resultado dessa educação. Então, como é que eu provavelmente cheguei lá? Como é que hoje eu lido com essa coisa de fazer um personagem feminino?

E foi um caminho interior. Eu pensei: eu vou vencer isso dentro de mim, eu vou  vencer, sobretudo batendo esse medo. Que era o medo de encontrar essa parte mulher que está dentro de mim, que está dentro de todos. Como é que eu poderia lidar com ela e deixar que ela me ocupasse. Então, acho que não foi nenhum processo, eu não me deitei num divã do psicanalista para poder conseguir isso. Foi um processo interno de encarar a verdade. E essa, digamos assim, como eu regresso sempre à infância, apesar de na minha casa, a minha mãe estava em minoria, o resto éramos três irmãos e o meu pai, mas ela, sendo só uma, produzia como se fosse um mundo inteiro.

Porque ela, na cozinha, juntava-se com as vizinhas, e ali elas, nessa coisa meio alquimista que é fazer a comida, eu sentado no chão fazendo os deveres de casa e não tinha nada de alquimia naquilo, mas eu escutava as histórias que elas contavam. Essas vozes, esses murmúrios, os segredos, essa coisa que dava um sabor de algo íntimo que eu não tinha quando eu estava no meio dos homens. Eu acho que eu me fiz escritor ali. Foi na cozinha que eu me fiz escritor. Eu me recordo de um pormenor que me tocou muito que até hoje me persegue que é: como eu estava no sentado no chão, eu via, sobretudo, as saias passando, ondulando. Ainda hoje quando uma brisa sacode a cortina eu sou transportado para esse momento, essas vozes. Não me lembro de história alguma, mas me lembro do encantamento de estar ali escutando histórias. Portanto, as mulheres produziram em mim esse tipo de memória”. Mia Couto

 

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