by georgeayers2000

Para quando você estiver cansado de ouvir: “Isso passa”

No silêncio da noite, ela se movia como uma cobra. Silenciosa e sinuosa. Seu riso era manso e seu passo macio. Quem a visse se encantava com os olhos profundos e a língua afiada. Não levava desafora pra casa. Não engolia sapo. Que contradição.

Ate que ele chegou e se insinuou em seu coração. De frio, o sangue jorrou quente, pareciam cascatas nas veias, no coração. Apaixonou-se entregou-se, perdeu-se. Depois, ele se foi. Ela começou a procurar. Só que não procurava por ele, mas procurava por ela mesma. Onde teria estado? Quem era? O que queria? O que é a vida?

Quanto mais questionava, mas se enredava. Como se comesse a própria cauda, girava em torno de si mesma. Repetia padrões e ações. Amava e desamava mais facilmente que todas as amigas. Sofria, enciumava, brigava, ficava só e chorava. Depois tornara a se arrumar, a sair, a procurar.

Um dia aconteceu. Quando menos esperava, percebeu o sonho em que se enredara. Parou de procurar em outras pessoas aquilo que só nela encontrava. Ficou tranquila de tudo, sorrindo de novo para o mundo. Já não se importava de engolir sapos. Tudo fazia parte desse perceber profundo.

A respiração, o ar, o corpo, os odores e o mar. Falaram sobre reencarnação. Ela falou de renascimento.  Contou do mar e suas ondas, das águas que são gotas a girar. Gotas que formam marolas, ondas enormes, espuma e tornam a voltar a ser mar. Sem nunca haver deixado de sê-lo.

Qual seria o princípio, o início, a causa número um desse constante desabrochar? Como Xaquimauni Buda, ela soube silenciar. Dedicou-se a cuidar das pessoas, das coisas, dos animais, da terra e dos vegetais. Cuidava dos passarinhos, dos cupins e dos golfinhos. Todos eram exatamente iguais.

Importantes, pois que, sendo, permitiam que ela fosse e compreender a grandeza do saber de interser. Percebeu que jamais ficava só. Pois havia o ar, as estrelas e o luar. Pernilongos e formigas fazem parte do grande tear.

No barulho do dia, ela se moveu como um Sol. Brilhante e clara. Seu riso era sonoro, seu mover, silencioso. Quem a visse se encantava com os olhos profundos e a fala calma, pausada.

Então, ele voltou e pediu perdão. Perdão de quê? De ter ido? De ter feito a sua vontade? De ter percorrido o mundo num só segundo? Ele chorava e tremia, falava tudo que vira. Guerra e aflições, fomes e convulsões, explorações e mentiras que levaram povos às guerras, à fome, à ruína.

Ela ouvia e o embalava dizendo apenas:

“Isso passa”.

Mas para passar doi tanto, arrebenta, faz ferida.

“Isso passa, veja a vida”.

Ele ergueu os olhos úmidos e percebeu que tudo luzia. As folhas nas árvores, o céu, as nuvens, até os carros. Ainda não convencido perguntou:

“De que serve essa beleza se há dor, se há tumor, se há maldade, heresia?

“Serve para abrandar o dia”.

E ela lhe ensinou a sentar quieto, parado, lhe ensinou a ver com o coração aberto, escancarado, lhe ensinou a agir para transformar sem raiva e sem rancor.

Juntos caminharam felizes, espalhando a toda gente que o mundo tinha mudado, pois muda quando nós conseguimos ver o outro lado. Há frutos para todos compartilharmos. Há respeito e ternura, sem ciúmes nem bravura.

A cultura de paz está chegando pra ficar e levar a humanidade a um novo jeito de ser, de servir, de agir, de pensar e de falar. Um jeito macio e gentil, como a brisa do mar em noite de lua cheia a nos abençoar. Um jeito macio e gentio, como o da criança.

Trecho extraído do livro Viva Zen, Publifolha, 2004, páginas 14/15.

 

TEXTO DEMonja Coen
FONTELivro Viva Zen
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