Kaio Bruno e a nova poesia de vanguarda produzida em Goiás

 Tenho uma mania antiga. Talvez tão antiga quanto eu: a de fuçar na produção cultural de Goiânia e acompanhar não só o que já está pronto e estabelecido, mas, principalmente, ir conhecendo e participando dos trabalhos de jovens artistas. Com a poesia, não é diferente. Comecei a ter contato com a “jovem poesia feita em Goiás”, quando, ao lado do Vitor do Meleka, criei o primeiro sarau da nova geração de saraus de Gyn, no Goiânia Ouro. Através deste instrumento, pude abrir as portas e os palcos para muitos jovens poetas e para alguns novos produtores. Acho um barato essa coisa de participar do dia-a-dia da produção cultural da cidade, sem me meter em panelinhas, e ir conhecendo gente talentosa ou não. Ir abrindo brechas. Fazendo amigos.
Conheci o Kaio Bruno, no Goiânia Ouro. Era um garoto, acho, de 18 anos. Lia muito na escola onde estudava e começou, na época, a fazer alguns poemas. Ficamos amigos e fui emprestando alguns livros para ele, para que conhecesse novos poetas. É preciso observar que, todos esses livros que emprestei, e mais alguns, ele nunca devolveu. Com o tempo ele passou a trabalhar comigo no Ouro e se revelou um poeta aplicado e um produtor atrevido. Enquanto fazia seu dia-a-dia no Goiânia Ouro, Kaio ia compondo seu primeiro livro de poemas, Peg & Pag. Vi os poemas nascerem e vi de perto as mudanças feitas nos textos, até chegar no resultado final do livro.
Gosto do Peg & Pag, por ene motivos. Mas, principalmente, porque ali está o crescimento e a aplicação de um menino poeta que vi florescer. Do primeiro livro para este, Kaio continuou seu crescimento. Este “Respeite a solidão alheia”, como diz o artista plástico Divino Dobral, mostra um poeta “que usa de linguagem simples, delicada e marcada pela juventude, para vasculhar as miudezas do cotidiano e da vida prosaica, para falar da ausência, da perda, da saudade, da solidão, dos desencontros amorosos, da impossibilidade de contato verdadeiro e de comunicação profunda nos dias atuais, do vazio existencial e da curta duração da vida”.
Assim que terminei de ler os originais de “Respeite a solidão alheia”, eu disse ao Kaio: no Peg & Pag, sua alegria era mais juvenil. Nesse segundo livro, você está mais triste, mais adulto, um doce crítico do cotidiano. “Respeite a solidão alheia/ e todo o silêncio que vem de dentro/ da mesma forma/ respeite o excesso/ respeite o momento/ o motivo/ respeite o que vem do outro.” Penso que esse poema que dá nome ao livro, já vai ensinando ao leitor, por quais picadas caminha o Kaio, e por quais estradas ele vai nos conduzir nessa aventura poética.
Juro que não quero ficar aqui babando ovo para o livro de um amigo quase filho. Mas é preciso explicar ao leitor que o Kaio dividiu, inteligentemente, esse trabalho em nove partes. “Sou péssimo em desistir”, “ela deu oito facadas no senhor e o senhor ainda voltou com ela?”, “não existe sensação de perda maior que a perda de um ônibus” e “rapidinhas”, são algumas das divisões. Nelas, a gente vai encontrando coisas assim. Vai vendo:
“fujo do amor igual o diabo foge da igreja universal”; “ao se relacionar com alguém não seja babaca”; “arrumei sarna para coçar, mas foi no peito pelo lado de dentro, onde o dedo não toca”; “quem cedo madruga boceja, sem parar tem rugas e mau humor”; e “semana passada marcamos um encontro/ eu te dei o bolo/ hoje estou te procurando para te entregar o café/ pois meu serviço é completo”.
Não sei se você que está lendo esse texto notou, mas estou, desde o começo, tentando te dizer que “Respeite a solidão alheia” é um belo livro. Mais: que você deve comprar rapidinho e ler, pois assim estará sendo apresentado a um dos melhores nomes dessa coisa que chamo de “jovem poesia feita em Goiás”, uma extensão de um movimento artístico que inclui várias linguagens e pode te surpreender, positivamente, pois vem carregado de meninas e meninos super talentosos. Entre eles, o Kaio Bruno. Ou Kaio Bruxo, como dizem alguns amigos.
Abaixo um trecho do livro:
“ela deu oito facadas no senhor e o senhor ainda voltou  com ela?
não teve jeito
depois de tanta estripulia
tive que colocar um aviso
na porta do peito
– entre sem bater –
***
fujo do amor
igual o diabo foge
da igreja universal
no fim
estou lá
de joelhos
com os braços para trás
xingando o pastor
mas sabendo que preciso dele
do mesmo jeito que ele precisa de mim
assim sou eu
e o amor
assim é o diabo
e o pastor.
***
não é que falta amor
amor nós temos de sobra
o grande problema do mundo
sempre foi a má distribuição
de tudo o que produz.
***
ao se relacionar com alguém
não seja babaca
mesmo não sendo eterno
trate com carinho
seja sempre amigo
não jogue desavenças no chão
dê descarga em tudo de ruim
apague a luz ao sair
lembre-se, outra pessoa precisará
desse amor que você sonegou.
***
até que a morte
os separe
disse o padre
morreu o desejo
a saudade e o tesão
o respeito agonizou
mas não aguentou os ferimentos
morreu a caminho do hospital
o amor foi forte
mas também se foi
se foi lentamente
dia após dia
mas também morria
só a gente ainda vivia
em coma induzido
pelas correrias do dia a dia
ah se o padre soubesse
aposto que teria dito
até que a vida
os separe.
***
geralmente é assim
a pessoa começa a gostar de você
se aproxima e diz querer viver contigo a vida inteira
você fica meio pé atrás
porque todo mundo que te disse isso
vazou da sua vida
mas você é bobo
e vai deixando as coisas irem acontecendo
com o passar de alguns meses
a pessoa percebe que você é um chato
e que não se parece com nada do que ela idealizava
aí termina tudo na base da indiferença
e daqui alguns meses
surge outra pessoa
e a vida vai seguindo.
TEXTO DECarlos Brandão
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