Leandro Karnal fala sobre cena de sexo gay nas novelas da televisão brasileira

Se o beijo gay foi durante décadas um tabu na TV, que dirá uma cena de sexo de um casal LGBT? A audiência mais conservadora nunca quis assistir a uma demonstração de carinho de homossexuais na TV aberta. E encontrava eco em atores, autores de novelas e, claro, nos executivos manda-chuva da emissora, que chegaram a censurar aquele que seria o primeiro beijo gay na tevê, na novela América (2005). Na terça-feira (12), foi a vez de a Globo exibir a primeira relação sexual entre dois homens em sua novela  Liberdade, Liberdade.

Sobre este assunto, o professor Leandro Karnal diz:

“É interessante imaginar que haja, eu suponho, um grupo que não queira ver um beijo gay e haja um grupo, numericamente inferior, que queira ver um beijo gay. O que é mais curioso é que ambos queiram que a televisão, a novela seja o espaço de justificação das suas escolhas – contra ou a favor.

E não se trata de eu saber se há ou não gays; se eu beijo, ou não, pessoas do mesmo sexo, mas eu quero ver consagrado no espaço da novela esse beijo, porque senão, aparentemente, a minha posição ficará comprometida. Ou seja, se eu for homofóbico ou tão somente contrário a um beijo gay na novela em horário nobre, eu quero que não ocorra para que esta posição não apareça, e se eu for homoafetivo ou a favor, simplesmente, ao beijo gay, eu quero que ocorra para reforçar minha posição política, nos dois casos, eu não sei se exatamente nós discutimos sexualidade já que o beijo gay ocorre milhares de vezes em todas as cidades do Brasil a todos os instantes e talvez na casa do senhor internauta que goste ou não dessa novela, sem que ele saiba ou sabendo é que nós queremos que novela seja o espaço politico de justificação disso, ou seja, isto além da sexualidade, fala do poder de representação da novela e talvez da fraqueza de outros espaços de discussão no Brasil – espaços políticos, espaços culturais e até espaços sociais.

A novela tornou-se, curiosamente, o espaço no qual ocorrendo ou não ocorrendo, minha posição fica validada ou não validada. Então há que se perguntar o que muda na vida de alguém que beija seu companheiro ou sua companheira homoafetivo, ou o que muda na vida de alguém que não tolera o beijo homoafetivo, o que muda na vida dessas pessoas se a novela apresentar ou não? Eu deixarei de amar? Meu casamento com uma mulher vai terminar? Meu casamento com um homem vai chegar ao seu apogeu?

Quer dizer, o que muda na representação, mais uma vez é curioso supor que no Brasil, o espaço da representação ocupa um espaço de realidade, é uma inversão da ideia do George Orwell de 1984 no qual a televisão tem que ser assistida, quer dizer, a televisão que aparentemente nos assiste, nós somos espectadores de uma realidade que é a novela, nós somos a novela, e a novela é a realidade, é como se invertesse a ideia do George Orwell de um grande irmão olhando tudo e como se na verdade o único espaço de realidade do mundo, fosse o espaço de um Big Brother, ou de uma novela, citando Foucault: “Aparentemente, é preciso que haja um hospício para que as pessoas que estão fora, entendam que não são loucas'”.

TEXTO DELeandro Karnal
FONTEPortal Raízes no Youtube
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