Leitura – uma viagem sem malas – Por Marcella Reis

Nem todas as pessoas gostam de ler ou cultivam a leitura. Algumas preferem dançar, assistir a um bom filme, cantar, ouvir música, praticar esportes, sair ou viajar e conhecer novos lugares ou fazer qualquer outro hobby que lhes agrade.

Contudo, para muitos, a leitura é um tempo de relaxamento em que se pode viajar sem sair do lugar e, o melhor, sem gastar dinheiro e sem ter que carregar malas!

A mente se transmuta no grande transporte que leva o passageiro, no caso o leitor, para mundos, climas, espaços, cores, sentidos, pessoas e milhares de coisas diferentes. O livro escolhido acaba por ser o destino de viagem a ser carimbado.

Na viagem fantástica que a leitura pode proporcionar, o “viajante” acaba por conhecer histórias e muitas vezes sentir que faz  parte dela ao se identificar com algum personagem que está inserido no próprio enredo.

Se uma pessoa estiver muito envolvida em uma determinada leitura, e se o autor que está sendo lido conseguir verossimilhança na história que conta, pode em muitos casos acontecer que o leitor sinta através da narrativa lida o cair da chuva, o cheiro da terra molhada, o calor de um beijo, a sensação de frio, de medo, de ansiedade, paixão e euforia como se estivesse realmente vivenciando tudo aquilo.

A leitura é irrefutavelmente uma viagem que não empobrece os bolsos, mas enriquece a alma. De certo modo, há nela um grande paradoxo que salta aos olhos e faz muita gente pensar, pois nessa viagem não se leva malas, mas volta-se dela sempre com a bagagem de conhecimentos cheia.

Quem faz essa viagem, nunca volta o mesmo e, como uma viagem feita nas férias, a leitura de um bom livro deixa sempre memórias, saudades e um gosto de quero mais.

Reler um livro do qual se gostou é como revisitar um local de viagem que tanto se amou e diante do qual já não se sente mais um turista.

É por isso que é comum ouvir dos leitores mais assíduos que “quem lê, viaja”!

Uma boa dica de leitura para quem está num tempo mais frio é o livro de Lygia Fagundes Telles, Verão no Aquário, em que a escritora narra fantasticamente a oscilação das memórias de uma jovem chamada Raíza,  que se misturam com o abafado verão da realidade em que vive. O calor é tamanho que até ameaça quebrar as paredes do pequeno aquário alojado na antiga cozinha.

A heroína vive entre as lembranças do falecido pai que, em vida, rendera-se ao alcoolismo e entre a rivalidade que trava todo o tempo com a mãe e escritora Patrícia, sempre admirada por todos e que está escrevendo um novo romance. Dentre estes admiradores, está um ex-seminarista atraente e tímido chamado André, que mantém uma misteriosa ligação com a romancista. Sentindo-se rejeitada pela mãe, Raíza cria na sua imaginação um triângulo amoroso entre eles. E, como as paredes do aquário, é certo que o conceito de família tradicional tende a se quebrar também.

Boa viagem!

Marcella Reis é escritora

 

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