Mãe, não se culpe, eu tive uma infância feliz

Desta vida, sentirei saudades da minha infância, do velho pequizeiro em forma de poltrona, de onde eu arranhava uma violinha de latão cantando “Você não soube me amar”  da Blitz; das bailarinas de graveto usando saias de flor-de-pequi; da amarelinha em forma de espiral que eu pulava em uma perna só; das trouxinhas de alface recheadas com tutu de feijão no lanche da tarde; dos banhos em bacia com sabão de bola numa água com cheiro de fumaça;

Do barulho de insetos transitando, à noite, nos buracos dos tijolos: “dragões e serpentes”; das bonecas “cantando” Parabéns pra você   em volta de um “bolo” feito  de pão amanhecido com recheio de “Maionese” sob uma vela de sebo;

Sentirei saudades, minha mãe: de todas as noites em que nós duas nos agachávamos no quintal de casa para fazer xixi e de cócoras dávamos gargalhadas com as estrelas. Você se lembra disso, mãe?

Sentirei tantas saudades daquele dia em que a “luz” finalmente chegou em nosso lar e ligamos todas as lâmpadas, a TV e o nosso 3 em 1 da Sharp novinho, novinho… Só para mostrar que tínhamos energia em casa.

Mas a saudade que mais tenho, mãe querida, é de vê-la sorrindo debochadamente a iluminar seus olhos verdeados… Naquelas tardes que depois viravam noites e madrugadas e dias, e tardes de novo, nos brinquedos de Truco com os tios e tias…

Até da trilha sonora daquelas tardes, eu sinto falta: Duo Glacial, Carlos Gardel, Vicente Celestino… Todos eles, que maravilha! Dissonavam os gritos do jogo.

E se a senhora pensa que eu me aborrecia em fazer o café e os petiscos, engana-se… Aborrecia não.  Pois eu amava tê-la ao alcance dos meus olhos e de todo o meu encantamento: seu sorriso – inesquecivelmente lindo – oh, Deus!, – quais as chances que eu tenho de mantê-lo?

Chequei até aqui e tenho vontade de aqui permanecer: pra repousar  eternamente nessas lembranças  e ignorar que numa esquina do futuro a pior de todas as tristezas me esperava…Mas não é de tristeza que quero falar. É de infância feliz.

Não. Não estou escrevendo isso porque  perdi minha mãe para os abraços da morte e estou consumida pelo remorso de não ter feito por ela mais do que devia. Não. Ela está mais faceira do que nunca. E ainda sorri debochadamente, ainda joga Truco até o dia amanhecer e às vezes tenta nos ensinar a coreografia de “Thriller”. Coisa mais linda do mundo é a minha mãe.

Eu escrevi isto só para dizer à ela que eu tive uma infância feliz; que a mim nunca faltou coisa alguma. Tudo de que precisei para transformar-me na pessoa que hoje sou,  eu recebi. E se porventura alguém lhe disser, mãe, que eu não sou grande coisa, pode apostar,  é mentira.

TEXTO DEClara Dawn
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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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