“Os ausentes nunca têm razão” – Uma reflexão proposta à esperança com Mario Sergio Cortella

[…] Estamos nos acostumando – com rapidez e sem resistência ativa – com alguns desvios que parecem fatais e inexoravelmente presente, como se fizessem parte da vida: violência, desemprego, fome, corrupção…É a prostração como hábito. É o conveniente pesar estampado no rosto e nas palavras, para disfarçar uma simulada impotência individual, mas que, no fundo, é expressão de um egonarcisismo indiretamente conveniente. Tão confortável assim pensar que Fernando Pessoa escreveu: “Na véspera do nunca partir, ao menos não há que arrumar malas”.

[…]Como insistia o inesquecível Paulo Freire, não se pode confundir esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Aliás, uma das coisas mais perniciosas que temos é o apodrecimento da esperança; em várias situações as pessoas acham que não tem mais jeito, que não tem alternativa, que a vida é assim mesmo…

Violência? – que eu posso fazer? – espero que termine; desemprego? – que eu posso fazer? -espero que resolvam; fome? – que eu posso fazer? – espero que impeçam; corrupção? – que eu posso fazer? – espero que liquidem.

Isso não é esperança de que as coisas melhorem. Isso é esperar. Esperançar é se levantar, é ir atrás, é construir, é não desistir! Esperançar é levar adiante, é juntar-se com outros para fazer de outro modo. Se há algo que Paulo Freire fez o tempo todo foi incendiar a nossa urgência de esperanças.

Julio Cortazar, o argentino que deu novos contornos à prosa latino-americana dos anos 1960 em diante, afirmava que “a covardia tende a projetar nos outros a responsabilidade que não se aceita em si”. […]

Por isso, resignar-se é de forma contundente, concordar involuntariamente ou, até, ser cúmplice passivo. Melhor ficar com o vaticínio de André Destouches, compositor da Ópera de Paris, advertia que “os ausentes nunca têm razão”.

(Trecho extraído de “A resignação como cumplicidade” – de Mario Sergio Cortella – no livro “Não nascemos prontos” – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 2014 – Páginas 88 a 90)

 

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