by megatruh

“Sentia-se árvore, sabia-se menino” – Uma reflexão encantada

José sempre experimentara uma vida alternativa àquela que levava na mansa e costeira cidadezinha onde nascera. Ele secretamente alimentava uma existência paralela em uma ilha salpicada por montanhas altíssimas, cujo nome oficial a falta de experiência com a cartografia humana não lhe permitia conhecer.

Desde a primeira fagulha de consciência, sentia-se planta, sabia-se menino. Em sua primeira lembrança, sentia pingos de chuva escorrendo por seu talo enquanto observava o horizonte além da janela de seu quarto secar sob o sol.

Percebia-se crescer, expandir, absorver a umidade do solo ao mesmo tempo em que ajudava o pai a puxar a rede de pesca em tardes amenas. Sentia suas folhas balançarem aos caprichos do vento e a cada movimento que realizava no futebol com os amigos, e, ao deitar-se, nutria sonhos de planta.

Suas memórias e percepções vegetais eram, portanto, vastas e profundas. Havia, porém, conflito. Enquanto planta, entendia que o ser humano se dissipava em drama e revolução ao verbalizar suas emoções. Enquanto ser humano, considerava que uma planta apenas acumulava, contemplava e vivia da eterna absorção de si mesma.

Durante todo seu tempo, José nunca questionara aquele estranho e repartido modo de existir. Quando menino, sentia que a bifurcação dos caminhos cessaria em algum ponto. Já adulto, antecipava o momento de convergência ao dobrar uma esquina, ao driblar uma onda no oceano.

Quando seu corpo desabrochou na velhice, todavia, José não mais conseguia distinguir se era um homem vivendo como planta ou uma planta que sonhava em ser homem.

TEXTO DEAna Henrique
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Ana Henrique
Escritora, editora e fotógrafa. Formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Antropologia pela Goldsmiths University of London. “Quando crio, busco sempre associar duas formas de linguagem: a escrita e a imagética”. Os contos Jacques, Elodie e África foram publicados na antologia Contos Fantásticos da 42, da Editora 42.




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