Mia Couto fala sobre a inspiração para os seus livros

O escritor Mia Couto elogiou hoje Marcello Caetano por ter arquivado a correspondência entre os militares portugueses durante a guerra colonial, cartas que foram uma das fontes de inspiração para o seu último livro, lançado hoje em Óbidos.

“Nunca pensei dizer isto em público, mas tenho de elogiar Marcello Caetano por ter deixado uma coleção de correspondência dos militares portugueses que é absolutamente inspiradora”, afirmou Mia couto durante o lançamento do seu último livro, “Mulheres de Cinza”.

A obra, com 400 páginas, inicia uma trilogia do escritor moçambicano sobre “dois lados da história” de Portugal e de Moçambique.

O primeiro volume, lançado hoje no Folio — Festival Literário Internacional de Óbidos, conta a história de Ngunyane, um imperador de Gaza, no sul de Moçambique, que se rebelou contra a potência colonizadora e acabou derrotado por Mouzinho da Silveira, preso e desterrado para os Açores, onde morreu em 1906.

Grande parte do romance histórico foi escrito “num castelo em Itália, para onde fugi”, confessou hoje o autor que, para escrever o segundo volume, pretende refugiar-se nos Açores, “onde ainda vivem muitos descendentes do imperador que podem contar histórias”.

Estas confissões foram feitas hoje perante mais de duas centenas de pessoas na apresentação da obra, que sucedeu a uma aula sobre literatura africana dada pelo autor e por José Eduardo Agualusa.

“A maioria dos países africanos são tão recentes que a busca da memória e da identidade são as questões centrais do nosso trabalho e do da maioria dos países africanos”, afirmou Mia Couto, com Agualusa a reforçar que muita dessa literatura tem a ver com a sua história “e os conflitos terríveis” com que grande parte deles se defrontou em décadas recentes.

Os dois concordam também que há hoje “uma segunda geração de escritores que estão mais preocupados em mostrar que são escritores do que em mostrar que são africanos”, afastando-se de “clichês” que ligam a literatura africana à poesia de combate, por um lado, e ao misticismo e ao fantástico, por outro.

Mas, a “relação muito aberta entre o sonho, o fantástico e a oralidade” gera “tantas histórias que, em Moçambique, o difícil é não se ser escritor”, acrescentou Mia Couto, contando episódios como as mensagens que recebeu sobre um caderno esquecido num armário e a cujos pedidos para que lhe fosse enviado recebeu “várias respostas a confirmar que ele estava no ‘arrumário”. Ou de alguém que o abordou no aeroporto sugerindo-lhe que usasse a palavra “improvisório” para definir algo “imprevisto e provisório”.

Muitas dessas histórias “são tratadas na imprensa como factos muito reais”, lembraram, brindando a assistência com episódios hilariantes sobre uma jiboia que invadiu a casa de um administrador de província e “às seis horas cantava o Hino”, ou a notícia sobre um “pseudo-voador” que queria voar entre a Ilha de Moçambique e Meca.

Foi uma hora de boa disposição entre os autores e o público, pela qual passou ainda a sugestão de “alterar a palavra lusofonia para lusofolia”, numa alusão ao festival que decorre na vila de Óbidos até ao dia 25.

Fonte: Notícia ao Minuto

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