Mia Couto, novo romance, novos desafios

O texto abaixo foi publicado pelo Jornal das Letras, site português cuja visita e leitura recomendamos, por ocasião do lançamento do novo livro de Mia Couto em Portugal, em outubro deste ano. Vale conferir.

A entrevista é de Luis Ricardo Duarte.

Documentos, relatórios militares, estudos e entrevistas. Poucos livros exigiram de Mia Couto um trabalho prévio tão vasto. É verdade que já percorreu várias vezes Moçambique de uma ponta à outra como jornalista, biólogo e escritor, sempre em busca de histórias e memórias, prestando atenção à palavra do outro e à oralidade. Neste caso, porém, o próprio tema já se lhe apresentava com contornos ficcionais. A figura que escolheu para o seu novo romance é por si uma personagem literária. E em territórios de falsidades, reinvenções e fantasias todo o cuidado é pouco quando o feiticeiro não quer se engolido pelo feitiço.

Ngungunyane foi um imperador que dominou o sul de Moçambique na segunda metade do século XIX. Fez frente à coroa portuguesa, que nunca conseguiu perceber a verdadeira dimensão da sua força. Mas não se opôs apenas ao poder colonial. Para a sua afirmação foi ainda decisiva a forma como soube jogar com as divisões entre as várias tribos locais, a quem também impôs a sua hegemonia. Capturado em 1895, numa campanha liderada por Mouzinho de Albuquerque, e depois deportado para os Açores, onde viria a morrer, em 1906, é ainda hoje um nome a quem não se pode atribuir um único significado. Para uns, foi um nacionalista, percursor de uma Independência que só chegaria muitas décadas depois. Para outros, foi o líder de um império criado à custa de muito sangue.

A Mia Couto, que nos seus livros tem revisitado vários aspetos do passado e da atualidade moçambicanos, da Guerra Civil ao caso das leoas que atacaram populações no norte do país, interessou precisamente a ambiguidade que a figura de Ngungunyane suscita e que se estende também à época em que viveu. Se os militares e políticos portugueses divergiam em relação à estratégia a seguir, as tribos africanas também guerreavam entre si. A voz que guia o escritor é, por isso, a da terra, que continua sonâmbula, como num dos seus romances mais emblemáticos. É nela que se enterram e é dela que se desenterram memórias e identidades. Neste caso, até armas, como se a guerra fosse uma semente com vida própria.

Dividido em três partes, As Areias do Imperador começa com este volume, Mulheres de Cinza, estando a publicação dos restantes prevista para 2016 e 2017. Um relato colossal que tem início na pequena escala, a de uma aldeia no meio de Moçambique, perto de Inhambane, onde ecoam os movimentos das tropas portuguesas e de Ngungunyane. Com a chancela da Caminho e nas livrarias no próximo dia 17, Mulheres de Cinza marca, assim, o regresso ao romance de Mia Couto, moçambicano, 60 uma das vozes mais poderosas e originais da literatura de língua portuguesa, distinguida, em 2013, com o Prémio Camões. Já com uma vasta obra, a cada vez maior projeção mundial que tem conquistado, inclusivamente em universos mais difíceis, como o da língua inglesa (foi finalista do Man Booker International Prize), exige ao escritor muitas viagens. “Para terminar esta trilogia tenho de me esconder, refugiar-me numa ilha qualquer, quem sabe nos Açores, onde morreu Ngungunyane”, adianta ao JL. Imperador e escritor juntos nas areias da memória. E da escrita.

Jornal de Letras: É possível a um escritor fugir de uma figura tão complexa e atraente como Ngungunyane?
Mia Couto: Com Ngungunyane tem-se uma relação de atração e de estranheza ao mesmo tempo. É, no sentido literal do termo, uma personagem, alguém que está para além dos vários mitos que se criaram. Se a atração é fácil de explicar, a estranheza funciona como um alerta. A primeira seria um convite à escrita, a segunda um ‘desconvite’. Além disso, há muitos livros sobre ele. Já tinha essa noção quando iniciei a recolha de informação, mas não a consciência da verdadeira quantidade de documentos produzidos.

Foi por isso que este livro se tornou um projeto de muitos anos?
Sim. Percebi que tinha de fazer pesquisa em dois domínios: um de origem portuguesa, outro moçambicana, com depoimentos e memórias da oralidade. É curioso notar que, tanto de um lado, como do outro, se construíram falsidades e conveniências. Em Portugal, engrandeceu-se uma figura que de facto tinha uma dimensão suficientemente forte para pôr em causa os interesses do país no final do século XIX. No entanto, quando os portugueses o capturaram e enfrentaram de maneira vitoriosa, Ngungunyane já estava perdido, sugado, vazado por dentro. Foi sem dúvida um ato destemido de Mouzinho de Albuquerque, que não tinha noção dessa fragilidade, mas na realidade o imperador acabou por ser capturado sem qualquer oposição. Os seus apoios e lealdades tinham ruído. Ao mesmo tempo, Portugal tinha de fazer a prova da sua capacidade militar e política, porque de outra forma perderia margem de manobra nos conflitos então existentes com outras potências coloniais. Havia, por isso, que engrandecer esta figura e criaram-se muitos mitos e lendas sobre o grande poder de Ngungunyane. Quanto maior é o poder, maior é a façanha.

Para um escritor que trabalha tanto nas zonas de fronteira é, como disse, uma personagem literária quase feita…
Sem dúvida. E ainda há o lado moçambicano, que serve de contraponto. Depois da Independência, também houve a necessidade de criar heróis da resistência anti-colonial. Aqui também se fez um trabalho de ficção imenso, mais ideológico do que histórico, construindo uma figura que se dizia nacionalista. Ora Ngungunyane nunca pensou nesta nação chamada Moçambique. A que proclamava como sua, era o chamado Estado de Gaza, no sul do país. São construções de parte a parte. É como se já estivesse a trabalhar sobre ficção.

Que têm tanto peso como os documentos históricos?
Exatamente. Escrevi este romance em diálogo com outras ficções, percebendo que tinha de ter essa distância em relação à fonte histórica, que nem sempre tem falsidades. Há registos com fundamentos de verdade, apoios factuais, que tomei a sério. E alguns são muito curiosos. Um dos livros que usei foi a correspondência entre militares e políticos da época, com organização, seleção e comentário de Marcello Caetano [As Campanhas de Moçambique em 1895 Segundo os Contemporâneos], que dá conta de claros conflitos, já que havia abordagens muito diferentes aos problemas e interesses portugueses. Como sempre, havia militares duros e políticos mais interessados em soluções negociadas. Ou seja, havia choques entre pessoas, divergências absolutamente antagónicas, pequenas traições. O contacto com essa realidade foi muito inspirador para mim, porque com este trabalho também quero mostrar que a História é feita de muitas e pequenas histórias, que são as que nos interessam a nós, escritores, e julgo que a todas as pessoas também. Há por vezes uma releitura do passado a partir do tempo presente, o que dá origem a mistificações e grandes discursos. As fontes ajudaram-me a partir para o pequeno discurso e a desconstruir o edifício solene da História que aprendemos na escola.

Entre esses esforços de esclarecimento e mistificações, o que representa hoje na sociedade moçambicana Ngungunyane? É possível ligá-lo à construção da identidade do país?
Com alguma dificuldade. Ngungunyane liderou um império que, como todos os impérios, teve muitas conquistas pelo sangue e pelo massacre. Há, por isso, uma memória que também é negativa. Quando se tentou, no tempo do Samora, reabilitar a sua imagem, surgiram logo dificuldades, a primeira por se tratar de um assunto muito recente – tudo em Moçambique é muito recente – com gente ainda viva, que se lembrava do que se passou, que dizia que não tinha sido bem assim. Não é fácil criar uma mistificação à volta deste herói e fazer com que seja aceite por todos.

Mas é uma figura muito presente?
Não tanto como se pensa, fruto de conflitos atuais da sociedade moçambicana (que resultam da resolução incompleta de conflitos mais antigos) que ainda estão muito presentes. Não há, como houve depois da Independência, uma vontade de o reivindicar. Tem-se a noção que isso desencadearia algumas resistências. Mas não é uma pessoa malquista a nível nacional, tem praças, ruas e escolas com o seu nome.

Este romance surge numa altura em que outras figuras africanas têm sido recuperadas, incluindo por escritores. No caso lusófono, José Eduardo Agualusa escreveu sobre a Rainha Ginga. Como vê esta coincidência e que significado lhe atribui? 
Haverá seguramente uma importância que até nos escapa a nós, escritores. Em Moçambique, estamos ainda na gestação da nossa própria identidade, o que é bom, não problemático, oxalá que ficássemos sempre assim. É, no entanto, preciso reconhecer que não há identidade que não se crie também nas costas da memória. São duas pernas de um mesmo corpo, uma que é a identidade presente, a outra as escolhas e a invenção da própria memória. E já que nos estão a propor uma memória que é pobre, de uma só visão e leitura, o escritor tem vontade de mostrar que há várias memórias e que o tempo tem leituras diferentes.

A voz da Terra
Apesar de lidar com grandes figuras, o romance é centrado numa pequena aldeia. Porquê?
Não sei fazer de outra maneira. Tenho de caminhar por alguém que eu conheça, mesmo que seja só por essa falsidade que é a invenção da escrita. Não saberia escrever um romance épico ou histórico no sentido clássico do termo. Faço a minha história em diálogo com as outras histórias.
Neste 1º volume, os movimentos do imperador e da coroa portuguesa surgem mais como ecos.
Sim, mas isso também faz parte da distribuição da história que fiz pelos três volumes. No segundo, Ngungunyane já aparece em pessoa, com um discurso direto mais claro.

O romance foi logo pensado como uma trilogia?
De início pensei que conseguia fazer tudo num só livro, mas aos poucos comecei a ficar fascinado e incapaz de encontrar um filtro para os pequenos episódios à volta destes conflito. A certa altura deparei-me com um livro que terminaria muito gordo.

Fugiu ao seu controlo?
Completamente. Mas a partir de certa altura também me interessou que a história fosse contada em parcelas. Pareceu-me que algumas temporalidades marcavam um fecho. Este primeiro volume é construído sobre a terra. É certo que são as mulheres que contam a história e que elas se desvanecem em cinza, algo ainda menos material e fixo, mas é esse elemento que domina o livro até as personagens entrarem no mar e embarcarem na viagem que os vai trazer, a Ngungunyane e às outras personagens, para Portugal (continebte) e depois para os Açores.

É da terra que tudo nasce, de facto. Até as armas. 
A terra é sempre, desde o meu primeiro livro, uma personagem, alguém com voz própria. É um ser vivo que não é exterior à nossa condição humana, antes a continuação do nosso próprio corpo, história e família.

Além de ter recorrido a vários documentos, fez também muitas entrevistas. A escrita deste romance foi uma experiência muito diferente das experiências anteriores?
Foi completamente diferente e uma briga enorme, um desafio que no início quase me fez desistir. No fim, contudo, gostei muito. Gosto de todos os meus livros, mas talvez ainda mais deste. Tive de aprender a escrevê-lo. Quando fui fazer as entrevistas de campo já tinha lido dezenas de textos, sabia o que ia procurar. Mas a oralidade ganha sempre uma dimensão fantástica. Se quisesse, podia estar sempre a escrever este livro, seguindo de memória em memória, passando de história para história.

Recorda, numa nota inicial, que alguns consideram que as ossadas que Portugal devolveu a Moçambique em 1985 não passam, afinal, de areia. O que lhe sugeriu essa imagem que tomou como título geral da trilogia?
É a metáfora do que é um império. Diz-se que os pés são de barro, aqui foram de areia. É nela, como na terra, que se guarda a memória do que fomos e do que somos.

Fonte: Jornal das Letras

Crédito da foto: Marcos Borga

 

 

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